sábado, 1 de outubro de 2011

PAPAI CANTAVA....( IV )

A FLOR DA SAUDADE...



No ano de 1911, ou seja, há exatos 100 anos, meu pai já era um
moço feito, com seus 16 anos de idade...Sendo a sua mãe viúva, desde que ele tinha 10 anos, e tendo a mãe e a irmã para manter financeiramente, cedo começara a trabalhar...
Minha mãe, à altura, era apenas uma menininha, de 3 anos de 
idade. Ambas as famílias, a de meu pai e a de mãe, residiam  
na mesma rua, em Fortaleza, no bairro Outeiro (hoje Aldeota).
Frequentavam a mesma igreja, na missa aos domingos: Igreja do Pequeno Grande. Interessante, é que os dois núcleos familiares se assemelhavam, na composição de seus membros: mães viúvas , e ambas com dois filhos,  uma menina e um menino.
Maria Carolina, minha avó materna, era mãe de Lauro e Maria José; Rosa, minha avó paterna, era mãe de José Joaquim e Maria Carmelita.O tio Lauro, era mais velho que a mamãe;meu pai, era mais velho que a tia Carmelita...
As duas senhoras, apenas se cumprimentavam, ao passar uma pela outra,nas ruas ou quando estavam na igreja, contava minha mãe...
Papai, inúmeras vezes comentou que se lembrava, perfeitamente, do tempo em que, ao assistir à missa, ele já rapazinho, observava a criança loirinha, de olhos bem azuis, que brincava com um terço, de joelhos, debruçada sobre o longo banco, daquele belo templo néo-gótico que é o Pequeno Grande. Aquela cena dominical, creio, 
o encantara, tal era a ternura com que ele se referia a essa passagem de sua vida, de quando conhecera minha mãe, ainda menina. A diferença de idade, entre os dois, era de 13 anos...
Mamãe, por sua vez, nos dizia que, quando já mocinha, ainda com as duas famílias morando  nas mesmas casas,na mesma rua, ao passar acompanhada de sua mãe, pensava, quando o via:" O José, só cumprimenta a mamãe...antipático e besta, como ele só!".. Era a  contra-partida para o relato do meu pai, sobre o"terço" com o qual, quando ela era pequenina, brincava, enquanto o padre celebrava à  missa....

Trago aqui, essas "cenas" de fatos reais, no intuito de associar, à  letra da canção,"A Flor da Saudade", que papai tanto gostava de cantar, ao intenso amor, tecido, pacientemente, por meu pai, à minha mãe, desde a sua adolescência...
Ele acompanhara o desabrochar daquela "mimosinha flor" que
era a sua  bela prometida :" a Mazé, da Dona Carolina, menina prendada, pobre, mas de "boa" família"...(palavras dele)...

Apreciem a pureza, o romantismo da letra..,que é bem curtinha mas, naturalmente, mimosa...

A FLOR DA SAUDADE

Ó terna saudade
Mimosinha flor
Só tu me acompanhas
Meu pranto e dor

Só tu me acompanhas
Meu pranto e dor     
Eu quero, quero amar-te
Mimosinha flor

Ó grito tristonho
Do campo assolas
Do meu coração
És fiel retrato

Só tu me acompanhas
Meu pranto e dor
Eu quero, quero amar-te
Mimosinha flor

Ó terna saudade
Que exprime paixão
Só tu tens entrada
Em meu coração

Só tu me acompanhas
Meu pranto e dor
Eu quero, quero amar-te
Mimosinha flor

*******

NOTAS:
1- A imagem, no início da postagem, que achei bem apropriada, para a letra de A Flor da Saudade, "salvei-a" no google...

2- No caderno, em que a letra está manuscrita, não há referência sobre o autor...como em grande parte das letras, como já me referí antes...


3- Retornando hoje, de nossa belíssima Capital Federal, Brasília,
devo confirmar que não vi, sequer, a famigerada "Rampa do Planalto". Além de visitar o "museu" do B., meu mano "véio", assistir à eterna Elza Soares (inteira) e alguns curtas e longas (muito bons) do 44 º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, fiquei "meia enclausurada" na bela "Asa Sul", da "Cidade Avião", projetada por Niemayer, revisitando o acervo de meu pai, onde, à cada visita, mais descubro de sua encantadora personalidade. Pasmem: não me fiz fotografar uma única vez, apenas fotografei objetos-relíquias...que tantas vezes passaram por suas prodigiosas e carinhosas mãos...

*******



Estou indo...........................................mas eu volto, um abraço!













quinta-feira, 15 de setembro de 2011

PAPAI CANTAVA....( III )

INOCÊNCIA

Muitas das cantigas que meu pai entoava, no aconchego de casa, junto à família, mais se assemelhavam às "canções de ninar", de tão suaves que eram as suas melodias. Para a canção intitulada "Inocência", cuja letra será aqui hoje postada, eu não saberia dizer em que gênero musical ela poderia estar classificada. Portanto, no projeto que irei encetar, gravando em CD, e/ou em DVD, as canções, serão consultadas pessoas especializadas na arte musical, em canções antigas, para uma avaliação e posterior classificação do gênero a que devam pertencer.
Em Fortaleza, existe o Conservatório de Música Alberto Nepomuceno, antiga e renomada instituição para  formação musical,com excelentes profissionais da área. Muito brevemente será agendada uma consulta, nesse sentido...
Por enquanto, leiam e se encantem, com a pureza da letra da canção:


INOCÊNCIA
F.C. Figueiredo

Brinca meu anjo inocente
Nesse folgar de criança
Não soltai a loura trança
Que te pode embaraçar
Brinca por perto de casa
Vai procurar o gatinho
Que matou teu passarinho
Que começava a cantar

Corre atrás das borboletas
Sacudindo a camisinha
Como é bela inocentinha
Nessa vida tão feliz
Rompe o vestido de cassa
Pisa a planta do canteiro
Quebra o jarro da roseira
A mamãe nada lhe diz

Vai-se banhar na fontinha
Seja embora o sol ardente
Desce a ladeira contente
Conduz a roupa na mão
Volta depois satisfeita
Tendo o corpinho molhado
Um pesinho vem calçado
O outro pé vem no chão

Aos braços da mãe querida
Corre a filhinha engelhada
Qual feiticeira abrasada
Beija a mamãe a sorrir
Com mil beijos e carícias
Pega os beijos da filhinha
Que mudando-lhe a roupinha
Fá-la no colo dormir...

                *******
NOTA:
1- "Inocência" , é uma das quase 160 letras, dentre poemas e canções de gêneros antigos, que constam 
nos cadernos dos quais me referí, no último post,
cujo nome do autor aparece, abaixo do título, conforme está acima: F.C. Figueiredo. Pesquisei, mas não consegui apurar de quem se trata. Se alguém "descobrir", peço que me informe...serei eternamente grata...
Não sei dizer, a que gênero musical, Inocência "pertence". Modinha, talvez...


2- Essa bela imagem de criança, no início da postagem de hoje, "salvei" no Google...

3- Amigos, ficarei ausente, do dia 16 ao dia 30 de setembro, Da Cadeirinha de Arruar. Vou estar com meu mano mais velho, o Zemaria, que reside em Brasília. Estaremos remexendo o acervo do papai, que ele tão bem preserva...(é a grande herança que será legada aos nossos descendentes).
Lá, visitarei outros familiares e amigos, além de
rever lugares de que gosto, na Capital Federal.
Só não irei, com certeza, subir a "Rampa do Planalto" ...








Estou indo...............mas volto, um abraço! 





quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PAPAI CANTAVA...( II )

MODINHA... 
 

Lá em casa, tínhamos dois cadernos, do tipo colegial, grande, nos quais haviam, em média, em cada um deles, 80 letras de canções, sendo algumas delas para serem cantadas em dueto. Era escrito em belíssima letra cursiva. Segundo meu pai, fora manuscrito por sua tia Luizinha, irmã de sua mãe. Muitas dessas canções, papai
conhecia de cor e as cantava, de vez em quando, para nós...
De tanto ele cantar, guardei a melodia de muitas delas.
Abaixo do título das letras dessas canções, na maioria delas , não havia o nome do autor. Aliás, muitas delas nem sequer possuem
título, apenas, é sugerido o "gênero" musical: valsa, serenata, hino, lundu, modinha...Na verdade, nesse total de cerca de 160 letras, boa parte, eram poesias...Abaixo do título de alguns poemas, aparece o nome do autor. Dentre esses poetas, estão :
Gonçalves Dias, Paulo Barros, Juvenal Galeno, Casimiro de Abreu,Castro Alves, Alvares de Azevedo, Soares Passos e  outros...
Sabe-se que, muitos desses poetas tiveram seus poemas musicados, 
como, por exemplo, Juvenal Galeno e Casimiro de Abreu...

Para a postagem de hoje, elegi uma "MODINHA", para ser cantada em "DUO". À medida em que eu for digitando a letra, estarei entoando, em silêncio, a melodia...
Tenho um projeto de registrá-la (e à tantas outras) em CD, na voz 
de Márcia Paiva, nos mesmos moldes que procedi com as "Canções Prediletas de Dona Mazé", cujas letras publiquei neste "espaço", no último mês de abril...Preciso registrar as melodias, para que não se "percam". Tenho, por "obrigação", repassá-las às novas gerações...ao menos, aos descendentes de "Dona Mazé" e  "Seu Paivinha" (nomes com que minha mãe e meu pai eram conhecidos).


Essa modinha, em duo, que hoje trago a letra, meu pai quando a cantava, fazia-o com imensa  alegria. Lembro-me que  a cantava 
sempre sorrindo. A explicação, por entoá-la a sorrir, é que os "personagens", do dueto, chamam-se MARIA e JOSÉ... O primeiro nome de mamãe, é Maria (Maria José), e o de meu pai é José (José Joaquim). Vejam que, à cada quadra que o personagem José canta, Maria responde, falando, apenas com uma pequena frase, às vezes exclamando, outras vezes interrogando...
Bem, sem mais delongas, passo à digitação da letra da tão prometida cantiga:


MODINHA 
(duo)

I
-Ai não me fites teus olhos
Com tamanha ingratidão
Pois tu bem sabes que moras
Dentro do meu coração

- Eu, não!

II
-Eu moro lá na casinha
Ao pé dos montes d'além
Falar não ouso de amores
Nem quero amar a ninguém

-Eu, também!

III
-Maria de ti distante
Minh'alma saudosa chora
Fala, diz, responde, ingrata
Que será de mim agora?

-Vá-se embora!

IV
-E tu dizes, vá-se embora
Que tão frio desamor
Pelo que vejo desprezas
Os meus extremos de amor

-Sim, senhor!

V
-Oh! que vergonha que sinto
Quero dizer-te e não digo...
Sim, Maria eu quisera
Poder casar-me contigo


-Comigo?

VI
-Sim contigo que receias?
Desejo ser teu somente
Quero te ver ao meu lado
Sempre risonha e contente

- Não mentes?

VII
- Eu mentiroso Maria?
Me julgas disso capaz?
Sei respeitar a memória
De meus avós de meus pais

-Que rapaz!

VIII
-Sou bem disposto bom moço
No campo sei trabalhar
Fala, rseponde, Maria
Queres comigo casar?

-Vou pensar!

IX
-Oh! que prazer! que folia!
Na nossa bela função
Eu vestido n'um casaco
E tu n'um branco roupão

- De balão!

X
-E as nossas boas vizinhas
Todas te olhando de pé
Uma à outra segredando
-"Como vai lindo o José!"

- Quando é????

*******
NOTAS:
1-Os  dois cadernos, aos quais me refiro acima, ainda existem, encontrando-se hoje no acervo que
pertencia ao meu pai, sob a "guarda" de meu irmão mais velho, José Maria Bezerra de Paiva, residente em Brasília. No entanto, guardo comigo uma cópia, dos referidos cadernos, para consultar...quando a memória "falha"....

2- Quem tiver interesse em conhecer as "Canções
Prediletas de Dona Mazé", irá encontrá-las nas
sete postagens, que aqui publiquei, a partir do dia15 do mês de abril do corrente ano...

3- Boa parte das letras das canções registradas, nos dois cadernos, são de origem portuguesa, dizia meu pai, como por exemplo, a que foi publicada hoje...


4- Márcia Paiva, é minha sobrinha, tem uma bela voz, e foi ela quem gravou, em CD, as "Canções Prediletas de Dona Mazé" quando da comemoração dos 100 anos de seu nascimento. As
letras dessas canções, constam na postagem do dia
14 /04/2011. O cd não foi comercializado, foi distribuido, apenas, para os amigos e a família.

5- A imagem, no início desta postagem"salvei-a" no google,(mercado livre), sendo escolhida para ilustração, por se tratar de um tipo de cartão postal (post card) muito em voga nos anos 1920. Papai e mamãe, se "enamoraram" no final dessa década...e se casaram no dia 12 de setembro de 1931, há exatos 80 anos...Era Primavera!!! 




Por hoje, é só................até mais, um abraço!










quarta-feira, 31 de agosto de 2011

PAPAI CANTAVA....

A NAU CATARINETA... (ou CATRINETA)...
José Joaquim de Oliveira Paiva, meu pai, nasceu em
Fortaleza, capital do Ceará,  a 7 de novembro de
1895 e faleceu a 19 de junho de 1977. De profissão
foi Guarda-Livros (hoje Contabilista). Na Fênix 
Caixeiral, instituição em que se graduou, tornou-se
professor de língua francesa e bibliotecário. Na Fênix,
filiou-se ao grupo literáro  Arcádia Fenixta,  que alí
existiu na década de 1920.Foi jornalista, escrevendo 
no jornal "Correio do Ceará", como Pio Valério. Foi 
livreiro, proprietário da Livraria Clássica. Escreveu,
 por muitos anos, no jornal católico "O Nordeste",
nos anos 1950 e 1960 assinando, então, J.J. Paiva. Por
vários anos publicou matérias na revista da Sociedade
São Vicente de Paulo.Líder católico, pertenceu às
Congregações Mariana, Franciscana e Vicentina,
permanecendo nelas... até se finar...

No mês de abril, do corrente ano, partindo do dia 15, publiquei sete matérias com as canções que mamãe mais gostava de cantar.
Hoje, revendo as letras das canções, resolvi iniciar uma série semelhante àquela, trazendo aqui, as canções (ou modinhas)
que meu pai mais gostava de cantar. Meu pai, como minha mãe, sempre embalaram com belas cantigas, durante toda a infância, os seus seis filhos, também depois da infância... muito além....até se ir, em 1977....Agora,vale recordar!
De todas as canções, lembro-me das letras e melodias. Como não possuo gravações, digitarei, as letras das canções. Nesta primeira, a "Nau Catarineta" (versão brasileira) e a "Nau Catrineta" ( em versão portuguesa) consegui vídeos, no YouTube. Com o intuito de complementar melhor, a postagem, publico os respectivos vídeos, após a letra da canção e as notas que se seguem...


NAU CATARINETA


Faz vinte e um anos e um dia
Que andamos n'ondas do mar
Botando sola de molho 
Para de noite jantar


A sola era tão dura
Que a não podemos tragar
Foi-se vendo pela sorte 
Quem se havia de matar  


Sobe sobe meu gajeiro
Meu gajeirinho real
Vê se vês terra de Espanha 
Areias de Portugal


Não vejo terras de Espanha
Areias de Portugal
Vejo sete espadas duas 
Todas para te marar


Arriba arriba gajeiro
Aquele tope real
Olha pra estrela do norte
Para poder nos guiar


Alvíssaras meu capitão
Alvíssaras meu general
Avisto terras de Espanha
Areias de Portugal


Também avistei três moças
Debaixo de um laranjal
Duas cozendo cetim
Outra calçando dedal


Todas três são minhas filhas
Ah! quem me dera  abraçar
A mais bonita de todas
É pra contigo casar


Eu não quero sua filha
Que lhe custou a criar
Quero a Nau Catarineta
Para nela Navegar


Tenho meu cavalo branco
Como não há outro igual
Eu dar-te-ei de presente
Para nele passear


Eu não quero seu cavalo
Que lhe custou a ensinar
Quero a Nau Catarineta
Para nela navegar


Tenho meu palácio nobre
Como não há outro assim
Com suas telhas de prata
Suas portas de marfim


Eu não quero seu palácio
Tão caro de edificar
Quero a Nau Catarineta
Para nela navegar


A Nau Catarineta amigo
É d'El-Rei de Portugal
Eu não serei mais ninguém
Se El-Rei te há de dar


Desce desce meu gajeiro
Meu gajeirinho real
Já viste terras de Espanha
Areias de Portugal


NOTAS:
1- Essa letra, era a que papai cantava. Lembro-me que, ao final do 3º verso, de cada quadra, acrescentava-se "oh! Tolina", repetindo-se, então, os dois últimos versos. Este refrão, facilitava o entoar da melodia de a Nau Catarineta, além de ficar mais "bonito" e mais "animado"'...o nosso cantar...Formávamos um "harmonioso coral",  (modéstia à parte), o pai com as três filhas . Os três meninos, mais velhos, raramente estavam presentes, à sessão de canto...
2- Nas pesquisas que fiz, na internet, encontrei várias versões, tanto de letras quanto de melodias(nos vídeos), da Nau Catarineta. Considerei importante, trazer a nota que exponho abaixo:
                                                                                 
 Nota de Luis da Câmara Cascudo, para a Nau Catarineta:   
Xácara portuguesa narrando as peripécias de uma longa travessia marítima, as calmarias que esgotaram os mantimentos, a sorte para sacrificar um dos tripulantes, a presença da tentação diabólica e a intervenção divina, levando a nau a bom porto. Publicou-a Almeida Garrett no seu Romanceiro e Cancioneiro Geral, Lisboa, 1843. Impossivel indicar o número de variantes em Portugal e no Brasil. No Romanceiro de Garrett é a XXVI, A Nau Catarineta. Muitos dos elementos sobrenaturais da xácara ocorrem nos romances El Marinero e Santa Catarina, divulgadíssimos na península ibérica e América espanhola, motivos da sedução demoníaca e da bondade divina. Houve realmente uma nau Catarineta que sofreu dolorosa jornada para Lisboa. Em 1666, os capuchinhos Michael Angelo de Gattina e Denis Carli de Piacenza, indo do Brasil para Portugal, encontraram calmarias no Equador e recordaram a tragédia do infellice vascello detto Catarineta (Mário de Andrade, A Nau Catarineta,, Revista do Arquivo Municipal. LXXIII, São Paulo, 1941; Renato Almeida, História da música brasileira, 211-216,ed. Briguiet, Rio de Janeiro,1942). É o documento mais antigo e revelador da historicidade do acontecimento. Transmitida oralmente, a xácara tem sido cantada initerruptamente por todo o Brasil, isolada,como em Portugal, ou reunida à jornadas de um auto tradicional, fandango ou marujada, taqualmente sucede com outras outras xácaras portuguesas, O  Capitão da armada, por exemplo, que também está no fandango;(Jaime Cortesão, O que o povo canta em Portugal, 142.Livros de Portugal, Rio de Janeiro, 1942).


Versão portuguesa, para a Nau Catrineta...


Versão brasileira, para a Nau Catarineta
                                                       
Assim, vimos a letra de a Nau Catarineta ,a que meu pai cantava, a nota de Câmara Cascudo e duas versões, em vídeo, uma portuguesa e outra brasileira, dentre as inúmeras versões existentes desta bela e sempre presente MARUJADA...
                                            ******
Já vou..................................................mas eu volto, um abraço!

terça-feira, 23 de agosto de 2011

SECA, de 1877 a 1879, em FORTALEZA....


Era VOZ CORRENTE: " A CACIMBA de Dona Mariquinha, não SECOU..."
Esta é uma das minhas bisavós paternas, Maria
Isabel de Paiva Oliveira. A outra minha bisavó,
era a mãe dela, Ana Joaquina de Castro Paiva,
que também era minha trisavó. ENTENDAM: 
Rosa,minha avó, filha de Maria Isabel casou-se com o tio,
José Joaquim,meu avô, irmão de Maria Isabel. Meu avô, foi genro
da própria irmã.Ana Joaquina era minha bisavó por ser mãe 
de meu avô e minha trisavó por ser mãe de minha bisavó...
A criança, no colo, é Jacinta, sua neta, filha de Manoel, aos
10 meses de idade. Manoel morreu aos 31 anos, de tuberculose...
Jacinta, foi freira franciscana, morreu aos 50 de idade, com tuberculose...
Muitos afirmaram que a SAGA não ACABARA...
É VERDADE...apenas, dei um "corte."..
A SAGA prossegue, com JOÃO e MARIA...que nem
"história de trancoso", contada pela vovó...
Mas essa é verdadeira, podem CRER !


Era uma vez...
...Maria Isabel de Castro Paiva, nome de solteira, que emigrou com 
a sua família para o Ceará  em 1843, vinda do Rio Grande do Norte após o assassinato do seu pai.Veio com a mãe e os irmãos,
com prováveis seis anos de idade...
Por volta de 1855 conheceu João Francisco de Oliveira, um açoreano, que chegara à Fortaleza a bordo do navio "Maria Carlota" que viera do porto da Ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores, juntamente com outros "mestres de ofício" que aqui chegaram para trabalhar, contratados que foram pela corte portuguesa, instalada no Brasil desde 1808, segundo conta a história...
Meu pai dizia que João Francisco, seu avô, trocara o sobrenome Pereira, de sua família, pelo de Oliveira, de seu padrinho
de batismo, conforme costume da época, se assim fosse o desejo do
do afilhado.
Pois bem, quando se conheceram, Maria  e João, este já
era viúvo e  trazia consigo duas filhas: Maria Virgínia e Joana, nascidas lá, na possessão portuguesa. Registro interessante, nos escritos de meu pai, é que o "Mestre João" (assim chamado, por ser "mestre de obras") trouxera, além das duas filhas, uma "urna mortuária" com os ossos de sua primeira esposa, Emília Rosa. Com ele teria vindo, também, seus irmãos, José Francisco, Antônio Francisco ,Tereza  e os seus pais: Jacinta Angélica e André Francisco Pereira.
Maria Virgínia, a filha mais velha, viria a ser mãe de um renomado músico cearense:Alberto Nepomuceno (1864-1920), que teria fama nacional e internacional. O Alberto , Maestro, era filho do também Maestro Victor Nepomuceno, filho adotivo de Antônio Raposo de Melo, marceneiro, também açoreano, primo de João
Francisco. Os dois insulanos, Antônio e João Francisco, estavam entre os 109 membros da Colônia Portuguesa da Cidade, conforme consta no livro de João Brígido, " A Fortaleza de 1845".
A outra filha, Joana, viria a ser mãe de Tereza, que se casaria com um seu tio, o poeta e romancista Manuel de Oliveira Paiva(1861-1892), que também  tornar-se-ia conhecido no cenário das letras alencarinas...e, de certa forma, brasileira...
João Francisco e Maria Isabel, tiveram oito filhos : Jacinta, Ana, Maria, Luiza, Isabel, Rosa , João e Manoel. As três primeiras, tornaram-se freiras (Irmãs de Caridade-Vicentinas); as três seguintes, escolheram o casamento; João, foi poeta e músico; Manoel romancista e poeta.Ambos participaram de vários movimentos literários da segunda metade do século XIX, na Fortaleza antiga...
Com as duas filhas do primeiro casamento de João, com mais os oito filhos ,somaram-se dez filhos, uma família muito numerosa  para um pobre homem sustentar condignamente.
Por esta razão, o mestre-de-obras tornou-se um homem de vários ofícios: agrimensor, entalhador, marceneiro, escultor, fotógrafo... Sabe-se, por se contar na família, que, antes de o "Mestre João"
vir para o Brasil, teria  pesquisado e estudado em Paris as técnicas de daguerreotipia (criada por Louis Daguerre, em 1837).
Foto de Louis Daguerre , o inventor da fotografia
em processo sem uma imagem negativa, denominada
daguerreotipia, criada em 1837..(Foto: Google)... 
                           

Não posso aqui me furtar de transcrever um pouco dos "escritos" de meu pai, quando ele se refere ao querido avô açoreano, mesmo sem tê-lo conhecido. Assim, escreveu meu pai:
"Certamente, da figura do modesto e paupérrimo João Francisco de Oliveira, a quem João Brígido, num artigo que não tenho em mãos, por tê-lo perdido, mas que foi publicado na edição de "O Unitário" há tempos, consagrada ao grande jornalista, deu o título de "Mestre de todos os ofícios", podemos dizer que era isso mesmo. Tudo ele tentou fazer, além do ganho do pão de cada dia. Chegou  a ser até medidor de terra, tendo falecido em 1871 em consequência de uma pneumonia contraída em Maranguape, quando alí foi medir umas terras. Suas tentativas em torno da fotografia tinham-lhe consumido a saúde e os recursos. No dia seguinte a de sua morte, minha avó saia da casa que ele mandara construir para residência.
Meu bisavô João Francisco de Oliveira, em auto-retrato,
em daguerreótipo. A placa de prata, com esta foto,
está no acervo da família. Bem preservada, para
as gerações futuras....

Nesta foto, temos o cruzamento da Av. Duque de Caxias,
com a Rua General Sampaio, m Fortaleza-CE, onde residia
  "Mestre João" e sua família.... Aí também,
funcionava a sua oficina de marcenaria e outros ofícios,
que garantia "o pão de cada dia"...
(Foto: Arquivo Nirez)

Estava hipotecada. Esta casa ainda existe, na esquina da Avenida Duque de Caxias, com a Rua General Sampaio, nº 1462. Para o lado da Duque de Caxias ficava a sua oficina (...).Sua vida, nos últimos anos afanosa, difícil, cheia de trabalho de artista pobre mas elevada pelo talento e pelas virtudes, ali teve seus derradeiros dias. era na velha estrada do Benfica, lugar naquele tempo denominado "Três Cajueiros". Mais de uma vez, entusiasmado com com as experiências de Banho de Prata, escrevia, num português característico:- "Agora, a agoa do Benfica acentada ou filtrada ataca pouco a prata: a agoa do Benfica não destroe a prata". Isso, era em outubro de 1869, segundo a posição de seu livro de notas".
Avenida principal do Benfica.  Daí vinha a "agoa" boa de que falava
o "Mestre João" que não "atacava a prata", nos seus trabalhos
com a fotografia. A casa onde ele morava, no centro de Fortaleza, na
Rua General Sampaio,  era o início desta via : a Estrada do Benfica...
(foto; Arquivo Nirez)

 Prosseguindo, meu pai ainda escreve: "Em fins de 1851, o Presidente Almeida Rego outorgava-o por Lei a conseguir em Pernambuco preços para várias grades de ferro, coroa e pavimento da velha Sé (...). Na Igreja da Prainha havia um grande órgão por ele fabricado antes de vir outro da Europa (...). em Canindé e Sobral trabalhou em igrejas.Construiu a capela do S.S. da Sé e em 30 de abril de 1860 contratava com o Governo da Província a capela  do Cemitério São João Batista, pela quantia 
de 2.873.$004. Na "Descrição da Cidade de Fortaleza",do douto historiador Antônio Bezerra, tudo isso e outros fatos se encontram relatados no que tange à capital".
 E mais: " O  mestre João foi também foi  pintor, quis também ser escultor, sem embargo do trabalho de obter o pão de cada dia para si e sua numerosa família. À noite, enquanto dormiam todos, certa feita esculpiu um belo Cristo Morto, de dimensão de 50 centímetros, em cuja superfície vemos riscos indeléveis não sabemos de que, lápis ou tinta, que futuramente teria de colorir. A morte o impediu de terminar o trabalho".
Ficando viúva, com a casa hipotecada, Maria Isabel, como relata meu pai, foi auxiliada pelos irmãos, mudando-se para outro bairro,
um sítio no Outeiro, à margem do riacho Pajeú, próximo ao Colégio da Imaculada Conceição, correspondendo, hoje, às ruas 25 de Março(antiga do Outeiro,Pajeú), Av. Dom Manoel(antiga
Boulevard da Conceição e Av. Dom Luis), Franklin Távora (antiga São Luis) e Pinto Madeira (antiga Travessa nº5, Rua do Córrego,da Cavalaria"). 
                                                                                                                                                                                                     
Esta foto, mostra a antiga Rua Pajeú(depois chamada Rua do 
Outeiro e atual Rua 25 de Março)...à esquerda, embaixo, ficava
o "Sítio Hospitalar" da Dona Mariquinha, tendo ao centro a 
"famosa" Cacimba...O sítio ficava no quarteirão correspondente
à lateral da antiga Escola Normal (Colégio Justiniano de Serpa, hoje).
Foto: Arquivo Nirez) 
Segundo relato de meu pai, em seus escritos, no centro do terreno, muito arborizado, havia uma cacimba, conhecida como "Dona Mariquinha", mesmo nome com que chamavam Dona Maria Isabel de Paiva Oliveira. Na frente do terreno, formou-se uma favela, durante os três anos da Grande Seca (1877, 1878, 1879).

Retirantes, flagelados, da  Grande Seca no Ceará nos anos de 1877
a 1879, em Fortaleza...Inúmeros, morreram de varíola...além da fome....
(Foto: google)
 Maria Isabel, a Dona Mariquinha, permitira que retirantes ocupassem abrigos sob as árvores.Nesta época, conta meu pai,passou a viver com a família Paiva Oliveira, uma órfã, vinda de Oeiras, Piauí:- "Luiza Carvalho de Oliveira que, anos depois, nos contava histórias de Trancoso a mim e minha saudosa irmã Carmelita e mostrava na Lua o Senhor São Jorge, com a espada, defendendo a jovem que o Dragão tentara arrebatar, mostrando ainda o Cavalo do Santo...(....). Era voz corrente que " a cacimba de D. Mariquinha não secou durante a Sêca, porquanto a água era de graça para todos" (...).


A cacimba dessa foto(do
google-Miranda)) não é a do "Sítio Hospitalar" de Dona Mariquinha. Recentemente f'ui, à Rua 25 de Março, na casa de nº 681, porquanto meu pai, em escritos datados de 1971, afirma que a referida cacimba  ficara lá, ao serem construidas casas, onde era o sítio.  Na época, 1971, a casa pertencia ao senhor Messias Gonçalves. Meu pai lá estivera e vira a "famosa" cacimba. Hoje, porém, lá funciona a Editora Folha do Ceará. Ao indagar sobre a cacimba, informaram-me que ela fora aterrada...
                              Fundo do quintal da casa nº 681 da Rua 25 de
                                            Março. Neste local, ficava a Cacimba da Dona
                                            Mariquinha, que resistiu, e existiu até1971...
                                      
Para não me "frustar", totalmente, fotografei o fundo do quintal
da casa 681da Rua 25 de Março....um" pedacinho", do que outrora
fora o Sítio Hospitalar de Dona Mariquinha, cuja cacimba não secou, na Grande Seca de 1877 a 1879:" a água, era de graça, para todos..."




                                           *******










Estou indo, ..............................................mas volto, um abraço!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

BARCA À VELA, TRAZ "RICARDO REIS"....

DO: A Minha Travessa do Ferreira >Lisboa
AO: Da Cadeirinha de Arruar > Fortaleza


Esta foto, "salvei-a" do blog  A Minha Travessa do Ferreira , de meu
querido amigo Henrique ANTUNES FERREIRA, de uma postagem
do último mês de abril - vida vivida - um chinelo velho...(à pesca do bacalhau).


Agradecer, já não basta, há que se homenagear. Afinal de contas,
já recebi  3 verdadeiros mimos, em tempo recorde, em CONCURSO/PASSA-TEMPO, na TRAVESSA DO FERREIRA:

1º prêmio: 1 livro, "Eurico, o Presbítero", de Alexandre Herculano; 2ºprêmio: 1 CD, Portugal, com músicas e interpretações lindas;    
3º prêmio: 1 livro, "Prefiro Rosas, Meu Amor, à Pátria e outras Odes, de Ricardo Reis (i agora Fernando Pessoa - Ática)...

Vale dizer que, o 1º prêmio, um livro, foi ganho no mês
de maio  último e foi enviado, me parece, de avião, chegando,
às minhas mãos, em tempo razoável....Já o 2º prêmio, um CD, tudo indicou, foi-m enviado, por um "Pombo Correio", em junho, tal a demora em atravessar o Atlântico... Agora, pasmem: 
o 3º, ganho no mês de julho (sem brincadeira!), só pode ter vindo de 
"Barca à Vela"... aquele tipo de caravela, em que o nosso, vosso,
Pedro Álvares Cabral, chegou cá, em 1500, tal o tempo que levou
para fazer a travessia ... Lisboa - Fortaleza.....


Porém, independente, do meio de que o Ferreiramigo se utilizou, para
enviar os três maravilhosos pêmios aos quais fiz jus, ele merece uma
homenagem bem especial, nesta Cadeirinha de Arruar....aí vai>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

  
>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>
Ferreiramigo, com um XÊRO
pra Kel e outro pra TU...
Obrigada, pela amizade...
Continue firme, após suas "vacâncias " em
Trás-os-Montes....

*******
Nota: esta homenagem, é extensiva  a todos
os amigos portugueses. Trazer a Barca Bela, de 
Almeida Garrett, deve agradar a"grego e troiano",
quanto mais... ao bravo e querido povo lusitano....!





Estou indo.....................mas eu volto...................um abraço!