A "PORÇÃO" ATRIZ, de Lúcia Paiva !
Fui uma criança imensamente tímida mas, assim mesmo, sendo eu a irmã mais nova de seis irmãos, sofrendo da parte deles forte influência, fui me "desasnado", como dizia a minha mãe, tornando-me mais solta, mais desinibida, em público. A influência maior, foi de meu irmão mais velho, José Maria, que tem 10 anos mais do que eu. Tanto ele, quanto os dois que o seguiram, nos nascimentos lá de casa, o José Maurício e o Carlos Alberto, desde garotos passaram a ter grande interesse em cinema, teatro, jornalismo...
Lembro-me de quando o mano mais velho, que chamo de Zemaria, junto a alguns amigos da nossa "redondeza", e mais os dois outros irmãos, resolviam selecionar "atores" e atrizes" para a representação de alguma peça de teatro que, àquela época, final dos anos 1940, chamava-se "drama". Assim, de drama em drama, íamos desenvolvendo os nossos possíveis "talentos" para a "ribalta".
Dos três irmãos homens, o Zemaria tornou-se B. de Paiva (Bezerra de Paiva) e, até hoje é Teatrólogo, às portas de seus 80 anos de idade. O Maurício, virou cinéfilo, chegando a assistir 3 a 4 filmes diários nos cinemas do centro de Fortaleza, que eram muitos, pelos anos 1940, 50, 60...O Carlos Alberto, passou a "professar" o Jornalismo,a Publicidade e oTeatro, com o nome Carlos Paiva. Das três irmãs, apenas eu, cultivou um pouco mais, até a juventude, a tal "porção" atriz, iniciada na infância, em meio às brincadeiras do "grupo familiar"....
Nosso 1º Teatro, foi o quintal de nossa casa, na Rua Barão de Aratanha 232 (BA, 232). Era um "Teatro de Variedades" onde, no programa, havia sempre números musicais, danças, poesias e textos dramatizados,sendo estes em forma de monólogos ou com um elenco de dois ou mais atores e atrizes. O "pano de boca" era uma grande colcha de cama, fornecida por minha mãe, a já bem conhecida Dona Mazé. Dois grandes pregos, martelados em cada lado do muro, seguravam a corda por onde passava a "bela" cortina teatral. Na verdade, eram duas: uma verde e outra vermelha, para se alternar, quando precisassem de lavagem. Foram muitos, os "espetáculos" na BA 232, com direito à venda de ingressos, retorno de bilheteria e muitos aplausos, aos futuros artistas que subiriam aos Palcos dos Teatros de Fortaleza. Alí, na "BA, 232", estava nascendo um "promissor elenco" para as artes cênicas cearenses: José Humberto, Tarciso Tavares, B. de Paiva, Carlos Paiva, Glice Sales, Marcos Miranda, J. Narbal, Lúcia Paiva...e tantos, tantos mais!!!
Esta rua, que tem seu início bem à frente da Igreja do Sagrado Coração
de Jesús, é a Rua Barão de Aratanha. Nessa foto aparece, apenas, o primeiro
quarteirão. A casa de nº 232, localiza-se dois quarteirão anterior a esse. Por ser
um número par, sabe-se que ela fica do "lado da sombra", ou seja, onde o sol incide
apenas pela manhã. Esta foto, portanto, foi tirada no período da tarde, como se vê no
último prédio, o da esquina com a Av. Duque de Caxias. (Foto: Panorâmio)
Por volta de 1954, o grupo da "BA 232", começou a se dispersar... Alguns, partiram para ouras "plagas", em busca de trabalho e de sucesso. Eu, ficando em Fortaleza, me "inseri" em um grupo dirigido por meu amigo Francisco Falcão (o Chico). Era o ano de 1957. Nessa época, eu já não morava na Rua Barão de Aratanha, mas na Rua Sadanha Marinho, 727, no então Bairro José Bonifácio.Naquele ano, sob a direção do Chico, montamos uma peça infantil, "A Revolta dos Brinquedos", na qual eu interpretava a Bailarina (que era um dos "brinquedos revoltados"). A temporada do espetáculo foi realizada no teatro do Colégio São Rafael, na Av. do Imperador.
Foto atual do Colégio São Rafael, onde há um teatro, em um desses
blocos. Não consegui fotografar o teatro, que seria o mais
importante, para essa matéria e pelo fato de vir a revê-lo.
(Foto: Panoramio) .
Enquanto encenávamos essa peça, passamos a ensaiar outra, também infantil: A Onça e o Bode, em que eu interpretava a Onça. Perseguimos e conseguimos, a muito custo, que o Theatro José de Alencar (TJA) fosse o palco de estreia. A "sorte" estava conosco : estreiamos, prosseguindo numa pequena temporada, neste teatro...o mais importante de Fortaleza, pela beleza e pela idade centenária, completada no ano 2010...
Theatro José de Alencar, visto à noite. (Foto: Panoramio)
Parte interna do do TJA. (Foto: Panoramio)
Visão, de fora, do Balcão Nobre, Frisas e Camarotes...
(Foto: Panoramio)
Bela visão do TJA, em dia de "casa cheia": plateia do térreo, frisas
balcão nobre , camarotes e "torrinha" totalmente lotados. BRAVO!!!
(Foto: Panoramio)
Visão do Balcão Nobre, Frisas e Camorotes, pelo lado interno
(Foto: Panoramio).
Teto do Theatro José de Alencar.Veja mais, sobre esse centenário
teatro, na Wikipédia...(Foto: Wikipédia)
SEM PALAVRAS!!!
Atuei no palco do TJA nas seguintes peças: "A Onça e o Bode", "Auto da Compadecida", "O Mártir do Gólgota" e em "Liberdade Liberdade".Não tenho programas e fotos das peças em que atuei. Aliás, guardo comigo apenas o programa de uma delas ,uma infantil, que mostrarei ao final deste texto. A "tal" peça infantil, foi encenada em 1969 em um teatro "desconhecido", pelo grande público: o Teatro Anchieta, situado à Rua Gonçalves Lêdo, nº 88, que nos foi cedido, para a temporada, pelos padres Moisés e Campos, da Comunidade Paroquial Cristo Rei.
Pois bem: no início da década de 1960, "encarnei" a personagem "A Compadecida", na peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, com direção do Chico Falcão. (Cadê o Chico???)...A última vez que o vi, foi no Rio de Janeiro..."pelejando" pela vida...
Em período de semana santa, por dois ou três anos consecutivos, "fui" a Virgem Maria, na peça " O Mártir do Gólgota", também na década 1960, dirigida por B. de Paiva (o meu mano Zemaria). No ano de 1967, em pleno regime militar no Brasil (Ditadura), "figurei" na peça "Liberdade, Liberdade" que, no Ceará, por incrível que isso possa parecer, não sofreu "cortes" da censura (milagrosamente!!!).Nessa peça, eu apenas dançava, ao som da música "Estatuto da Gafieira", na voz gingada de Jorge Veiga...
Meu parceiro de palco, na gafieira, era o então "apenas" ator, Aderbal Júnior que, anos depois, tornou-se um excelente diretor de teatro e, hoje, "atende" pelo nome de Aderbal Nunes Freire. Ele "criou asas" e foi para o Rio de Janeiro, como muitos cearenses, inclusive eu, no ano de 1970... Seu sucesso é retumbante, como um dos melhores diretores teatrais brasileiros...
Depois de Liberdade, Liberdade, desempenhei uma "mulher de Lorca" na peça Bodas de Sangue. Acredito que esse tenha sido meu melhor papel no teatro. Nele, tive a chance de fazer um DRAMA de verdade, aliás uma TRAGÉDIA, além de me "revelar" "CANTRIZ", ao entoar uma bela canção de ninar. Ao ponto de o maestro, que dirigia a parte musical(Orlando Leite), me aconselhar a estudar canto, por ter "descoberto", em mim, uma voz rara de contralto. Mas eu "perdi o bonde" do bel canto....não fui me aperfeiçoar,nem no teatro, nem na música... lamentavelmente!!!
Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno - da Universidade
Federal do Ceará- UFC. (Foto do ICA- Instituto de Cultura e
Arte - da UFC)
Palco e plateia do Teatro Paschoal Carlos Magno, da UFC.
(Foto: Acervo do Arquivo ICA-UFC)
Bodas de Sangue, teve a sua temporada no Teatro Universitário, da Universidade Federal do Ceará. Hoje, esse teatro leva o nome do grande Paschoal Carlos Magno...criador do Teatro do Estudante, e do Teatro Duse, no Rio de Janeiro...dentre outros colossos....
Poeta, Romancista, Dramaturgo, Embaixador,
Paschoal Carlos Magno (1906-1980), a quem
tive a HONRA de" ter" na plateia, na estreia da
peça "BODAS DE SANGUE", no teatro que hoje
leva o seu nome...(Foto: Acervo do Arquivo da
Família Carlos Magno - Rio de Janeiro)
Depois da temporada de Bodas de Sangue, com a presença de Paschoal Carlos Magno, na estreia da peça, dirigida por B. de Paiva, em Fortaleza, o elenco do Teatro Universitário foi ao Rio de Janeiro, participar do Festival de Teatro do Estudante apresentando-se, "hors concours" , no Teatro Glauce Rocha...
Teatro Glauce Rocha, no edifício da FUNARTE, na
Avenida Rio Branco, centro do Rio de Janeiro.
(Foto: acervo FUNARTE)
Palco do Teatro Glauce Rocha (Foto: Acervo FUNARTE)...
Certa vez, vindo eu de férias para Fortaleza, já então residindo no Rio de Janeiro, onde permaneci 25 anos, recebi um convite "desafiador" do diretor da "Comédia Cearense", Haroldo Serra, para ir, em turnê, até ao Cariri - Juazeiro, Crato e Barbalha - substituindo a atriz principal, no papel de Madalena, na peça "O Morro do Ouro"....Aceitei o desafio, decorei o texto e lá fomos, rumo ao Cariri, levando a peça de Eduardo Campos, em curtíssima temporada: uma noite, em cada cidade - sexta feira no Crato, sábado em Juazeiro e domingo em Barbalha. Valeu, a EXPERIÊNCIA!!!
No meu "currículo teatral" , a peça que mais deixou-me saudades foi a infantil "Crack, Bang, Flash". Este título, seria a onomatopeia dos sons produzidos, num ato de violência física, por indivíduos aos socos recíprocos... digamos assim!!!...Essa peça, foi escrita por meu irmão Carlos Paiva,"inspirada" em histórias de quadrinho da época: década de 1960. A temporada dessa peça foi EXCEPCIONAL, com "casa" sempre cheia, aos sábados e domingos,no Teatro Anchieta, na Rua Gonçalves Ledo, 88, no bairro Aldeota. No espetáculo,, eu fazia um personagem menino - o Super Baby. Era tal, o "sucesso", que fui convidada, pelo publicitário Tarciso Tavares( o querido TT - amigo desde a BA 232, que morava na casade nº 200 da BA...), para fazer uma propaganda da loja Ocapana, de roupas infantis, "ao vivo", em preto e branco, na TV CEARÁ.
Eu, "travestida" de Super Baby, falava o texto da propaganda e, ao final, fazia uma "chamada", para a garotada de Fortaleza ir assistir à peça. Valeu-me um bom "cachê". Como disse acima, o programa da peça infantil "Crak, Bang Flash", foi o único que me restou. Guardo--o com carinho... Ao menos isso, assim poderei "comprovar" que, realmente, em algum tempo do passado, fui atriz de teatro...
Eis, o programa! Atentem para um
detalhe: o personagem Bil Quadrinho,
que que forçava os seus comandados a
serem MAUS, sentado em uma PRIVADA,
lendo história em quadrinho, se preparando
para as maldades.O desenho, é do artista
plástico e escritor, AUDIFAX RIOS, grande
colaborador do CARLOS PAIVA(de saudosa memória,
ator,autor diretor da peça "CRAK, BANG FLASH"...
Este é o "verso" do programa,
com apenas uma folha. O texto
é de Carlos Paiva, que dirigiu e
atuou na peça.Confira meu
nome, no ELENCO....acima!!!
Pensando bem, até que a minha "porção" atriz não foi tão pequena assim.... Apenas, o "acervo" que pssuo, resume-se nesta minúscula, mas interessante, folha de papel , que conta um lindo pedaço da minha vida...Nessa época, 1969, eu estava prestes a me graduar como Pedagoga...."Interrompi" minha carreira de atriz, mas nunca deixei de desempenhar minha "porção" atriz, também, em sala de aula, ao ministrá-las...
Para finalizar a postagem, trago, para ilustrar, uma foto minha, da época em que interpretei o "SUPER BABY"...Reparem o meu cabelo, bem curtinho, para "convencer", melhor, às crianças da plateia, de que eu era, realmente, um menino...
Agora, vem a velha pergunta: "É a VIDA que imita o TEATRO ou é o TEATRO que imita a VIDA ?
Lúcia Paiva, "decorando" as "falas"de seu personagem
Super Baby, do texto da peça infantil "Crak Bang Flash",
de Carlos Paiva (seu irmão), encenada em1969...
(FOTO: AUTO RETRATO )....ACREDITEM!!!
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Já vou indo............................mas eu volto! Um abraço!