CONTO DE OLIVEIRA PAIVA (1861-1892)...
Igreja do Pequeno Grande tendo, ao lado, o Colégio da Imaculada
Conceição. A Igreja foi construída posteriormente ao colégio. Neste
Colégio estudaram todas as irmãs de Oliveira Paiva, sendo que,
três delas tornaram-se Irmãs de Caridade.(Foto: Arquivo Nirez)
Manuel de Oliveira Paiva nasceu em Fortaleza, em 22 de junho de 1861. Vivendo no seio de uma família extremamente católica, foi enviado muito cedo, aos 14 anos de idade, para cursar o Seminário do Crato, no Ceará. Na realidade, o referido seminário foi instaurado no ano de seu ingresso nele: 1875. Era o único aluno da capital, Fortaleza, todos os demais, da 1ª turma, saíram de cidades do interior do estado do Ceará.
Nas biografias, que até hoje lí, do escritor, consta como ele tendo "cursado" o seminário. No entanto, ele permaneceu no seminário por pouco mais de um ano. O motivo de sua saída, cujo teor é relatado em uma biografia inédita do escritor, elaborada por José Joaquim de Oliveira Paiva(1895-1977), (seu sobrinho materno e meu pai), é bastante inusitada, e será assunto de uma postagem futura...
Depois de pouco tempo de sua saída do Seminário do Crato, Oliveira Paiva resolveu seguir a carreira militar no Rio de Janeiro. Paralelo aos seus estudos na área de Engenharia, na Escola Militar, desenvolveu suas atividades intelectuais, escrevendo em jornais da própria corporação onde servia.
Acometido de tuberculose, algum tempo depois, retornou várias vezes à sua terra natal, para o tratamento da doença. Numa de suas vindas, veio a falecer. Era o dia 29 de setembro de 1892, e contava, apenas, 31 anos de idade. Deixou viúva, sua própria sobrinha, Tereza, com quem se casara dois anos antes, e uma filha, Jacinta, com 10 meses de idade.
Tereza, a "prima Tetê" como meu pai a chamava, casou-se em segundas núpcias, alguns anos depois. No dia 9 de outubro de 1892, em virtude de sua morte, o jornal "O Operário" , de Fortaleza, publicou um número especial com uma POLIANTÉIA, onde consta o depoimento de 30 amigos do escritor. Esse tema, também, será trazido a estas páginas, oportunamente.
Maria Isabel Paiva de Oliveira e Jacinta de oliveira
Paiva, mãe e filha de Manuel de Oliveira Paiva.
Jacinta, tornou-se freira franciscana, vindo a falecer
no ano de 1942, ano em que eu nasci. Há poucos
anos fiz pesquisa sobre sua vida religiosa. A causa
de sua morte, foi a mesma de seu pai: tuberculose.
(Foto: Arquivo próprio)
Vale aqui dizer que sua mãe, Maria Isabel, muito se abateu, por ver seu sonho, de ter um filho padre, desfeito...Mais triste ficou, ainda, quando o viu partir para a Corte (como era chamado o Rio de Janeiro, por ser a Capital do Império, então). Ao vê-lo retornar algumas vezes a Fortaleza, mas doente, a pobre mãe sentia um misto de alegria e desventura...A morte prematura do filho, deixando-lhe uma neta órfã de pai, em tão tenra idade, veio tornar o quadro ainda mais desolador...
O que consolava Maria Isabel, era ter, além da neta, mais um filho homem, João (poeta e músico), e seis filhas mulheres. Três, destas filhas, escolheram o matrimônio, as outras três, optaram por serem freiras (Irmãs de Caridade, de São Vicente de Paulo). Estas três irmãs, iniciaram-se no apostolado do Colégio da Imaculada Conceição, cuja foto ilustra o início desta postagem.
Irmãs de Caridade. (Foto do blog Acaraú para recordar)
A PAIXÃO
(Por Manuel de Oliveira Paiva )
Daquela varanda ela assistia às cerimônias. É verdade que alí, por ser muito alto, sentia-se toda aquela calidez incômoda todos aqueles eflúvios do corpo humano viciando o ar e subindo invisivelmente a enrubecer-lhe a tez e a perseguir-lhe o nariguinho afilado; mas por si: o mesmo estava constantemente a agitar o seu grande leque de seda, que afastava-se e aproximava-se do seu coração como uma enorme borboleta negra.
Havia claridade pouca, suficiente porém para o livro da semana santa poder espelhar-se no olhar calmo e profundo e inocente, as carreirinhas de tipos muito negrinhos no papel branco.
Todavia, a falar a verdade, aqulas palavras não podiam despertar-lhe idéia alguma, visto como em um só peito não se podiam abrigar dois amores ao mesmo tempo pela lei física da impenetrabilidade.
E assim, descansava o olhar, que era o veículo por onde o seu espírito mais se impressionava, percorrendo vagarosamente o grande todo do templo. Tudo era vendado.
A vidraçaria pintada do coro impregnava de palor os lados do imenso vulto escuro do órgão. Os cantores, de preto, arrumavam-se entre os fiéis que invadiam o recinto a eles reservado, e nem o pavilhão de ofclide brilhava com o seu reflexo de arame.
De um lado, ali no coro, aglomeravam-se em ordem as educandas do colégio, e via-se o chapéu das irmãs de caridade, como grandes aves que querem voar. A ordem superior de varandas, bilateralmente, estava repleta, e a inferior, com os seus balaustres brancos e o seu coreto de linhas de cadeiras ascendentes.
Era como num teatro em que houvesse enchente à cunha.
As grossas colunas da nave pareciam caçapar-se ao peso das parede altíssimas.
Grandes véus negros encobriam as duas capelas colaterais. Nas aras velas de cera de um amarelo sombrio e cru, em castiçais pretos e cada nicho estava transformado numa janela escura.
O doirado das obras de talha destacava-se apenas, bordando o custoso emolduramento dos altares como uns longínquos luzimentos mundanos.
La dentro da capela-mor as janelas de varandas auribrancas estavam prenumbradas. Do enorme pano que tocava no teto e erguia-se ao fundo do templo sentia-se baforar toda aquela escuridão que se equilibrava no ar, e dilatava-se por todos os cantos. O mármore róseo do arco da capela-mor abria em iris sobre aquela nuvem negra; e lá no tapete multicolorido, os padres, uns de batina e sobrepeliz de rendas, outros de alva e casula cor do sol, diziam segredos em voz alta, ora paravam, ora iam, ora vinham, ora assentavam,, misteriosos, vagarosamente, lendo em grandes livros, queimando incenso, e soltando para o espaço, como aves negras, umas após outras, as notas tristes do cantochão. A fumacinha como prateada do incenso perdia-se logo.
Algumas vezes punham a mitra, depois de beijá-la, sobre a fronte encanecida do diocesano, e este levantava-se com o seu rico capelo de ouro.. Aparecia, às vezes,, com o seu roquete de finíssimo bordado, com a batina roxa, e a sua murça que lhe dava uns ares reverentes, e o grosso trancelim com a cruz cravejada caindo sobre o peito e o anel de esposo da igreja, às vezes com pesadas capas de rei, com púrpura e arminhos; às vezes com a longa santidade das vestimentas pontifícias.
Mas os sentimentos dos fiéis não estava geralmente para esse recinto do sanctus sanctorum, para o simbólico erudito das cerimônias, para a piedade do ato, dentre aquela multidão a mais não poder, com o espírito lia-se os espíritos na direção ou no vago das pupilas, na atitude dos ouvidos, nos lábios em sorrisos, em conversação, ou em recolhimento, na fronte, no porte, no todo compungido ou disfarçado, religioso ou mundano.
Da capela do Sacramento, ouvia-se bater um martelo, ensurdecido, acolchoado e, de quando em vez, a rangedeira abafada de uns passos cautelosos. Naturalmente, preparos de novas cerimônias.
Grunhiam os pesados gonzos de uma longa porta sumida num dos corredores, entrando ou saindo alguém, e um jato de claridade branca e diurna, despejava-se pela igreja. Depois voltava o escuro.
Nas altíssimas janelas da nave, que dão para cima dos telhados, o dia salpicava apenas pela fímbria dos tristes véus pretos, e ornava de estrelas os buraquinhos do pano. Pedacinhos de claridade caiam esfarinhados, na parede. O órgão às vezes mugia, às vezes balava, ou soluçava e gemia, acompanhado pelo violoncelo, pelo ofclide, pela flauta e pelo delgado violino penetrante sob o grosso esvoaçar das vozes dos cantores.
Era uma provocação desabrida para as lágrimas.
E, enfim, no púlpito suspenso na parede, cujo caimento parecia repassado do esfuminho, apareceu o padre, um rapaz gordo, alvo, risonho, fazendo muito por tornar-se carrancudo com as largas mangas do seu roquete caindo sobre a toalha que arrodeava o corpo da tribuna.
Virou-se para o santuário e persegnou-se largamente. E, depois, com as duas mãos nas bordas do púlpito, debruçando-se para o auditório, começou, alto e pousado e vibrante:
- Et inclinato capite...tradit spiritum!...
E toda aquela multidão distribuida e apinhado pelos corredores, pelas varandas, pelo coro, pelo corpo da igreja, pelo pé dos altares, por todos os cantos, prestou olhos e ouvidos.
O pregador se destacava bem. Um pouco acima de seus cabelos crespos ficava o alto da porta, ornado de um frontão que desprendia uma auréola, como um sol desabrolhando. O corpo da tribuna findava em uma maçaneta, para baixo, como um cacho de uvas de ouro atado à ponta de uma cortina. E todos olhavam para cima, e o padre continuava na placidez da sagrada eloqüência.
De quando em vez saia-lhe como um raio trêmulo, como uma faísca elétrica entre os rebordos das nuvens aclarados e escurecidos momentaneamente.
E prosseguia a chuva abundante da palavra de Deus.
Como a chuva ensopa com o inverno e fazem nascer as sementes no agreste, assim as almas estremunhavam, acordavam e, metidas no sombrio, na luz coada, no morno, despertavam da carne pecaminosa e esterilizada...
Em dado momento, apareceu nas mãos do pregador uma tela pendurada, um lençol branco e nele estampado a imagem de um homem despido, com uma toalha nos rins.
E, em lágrimas, num trêmulo crescente, a mão vacilante, cheio de dor, o padre murmurava choroso:
- Ei-lo, ei-lo o vosso pai, o vosso amigo, o vosso irmão,, o vosso Jesus...ei-lo... assim maltratado, assim golpeado...Esta cabeça cheia de ciência, rasgada por uma coroa de espinhos; este coração fonte de amor, atravessado por uma lança; estes joelhos, que só se dobravam para levantar os mortos e curar os enfermos, descarnados até os ossos; estas mãos repassadas de divino eflúvio, esmagadas barbaramente por duros cravos; estes pés, que palmilharam sobre as ondas, conjuntamente arrepelados e arrebentados com um cravo dilacerante; estes ombros, vede-os cristãos, vede-os como ficaram no peso da cruz...vede-os..."
E a mor parte dos fiéis soluçava...Já não se via contínuo e embastido movimentos de leques pela superfície da multidão. Ouvia-se um guincho de uma mulher nervosa e o assoar do bendito muco do choro santo...
Sentia-se uma consternação inexprimível!
Eu ajoelhava prostrado ante a divina figura do Mestre e o meu olhar trespassava-lhe também o coração fonte do amor. Mísero pecador, sumido na multidão, quisera que me visse, que soubesse que eu lhe quero bem. E parecia de seu peito cair o sangue tão puro e verdadeiramente como caiu no Calvário. Eu tinha vontade de lhe gritar - Eu te amo porque tu sofres.
Entretanto, senti que no coração dele outro olhar estava abrigado, e que o meu espírito, que lá estava, pergunta - Que quereis? E quase o outro olhar me pergunta o mesmo.
Inquirimo-nos, entretanto, conjuntamente: - Aqui não é a fonte do amor?
E as duas almas, feitas uma para a outra, encontradas la dentro do coração de Jesus disseram-se: - Bebamos, pois, da fonte do amor!...
O padre continuava, mas nós não entendíamos. O meu corpo inane caia cada vez mais sobre os joelhos, numa adoração profundíssima. E do sudário, desaparecera o Jesus sanguinolento, para pintar-se ela com o seu vestidinho preto e e as suas pulseira de ouro, a olhar-me para meu coração soluçante.
O padre me apontava era para os lábios mudos de sentimento, e e para a sua fronte livre de pesadumbres.. E gritava-nos: - Amai, arrependei-vos do tempo perdido...
E eu apertava o meu peito com as duas mãos.
E adormecido, entorpecido, ignorante, alheio, tomado de dor e de ventura, ouvi as últimas palavras: et tradit spiritum...e entregou o seu espírito.
De um lado, ali no coro, aglomeravam-se em ordem as educandas do colégio, e via-se o chapéu das irmãs de caridade, como grandes aves que querem voar. A ordem superior de varandas, bilateralmente, estava repleta, e a inferior, com os seus balaustres brancos e o seu coreto de linhas de cadeiras ascendentes.
Era como num teatro em que houvesse enchente à cunha.
As grossas colunas da nave pareciam caçapar-se ao peso das parede altíssimas.
Grandes véus negros encobriam as duas capelas colaterais. Nas aras velas de cera de um amarelo sombrio e cru, em castiçais pretos e cada nicho estava transformado numa janela escura.
O doirado das obras de talha destacava-se apenas, bordando o custoso emolduramento dos altares como uns longínquos luzimentos mundanos.
La dentro da capela-mor as janelas de varandas auribrancas estavam prenumbradas. Do enorme pano que tocava no teto e erguia-se ao fundo do templo sentia-se baforar toda aquela escuridão que se equilibrava no ar, e dilatava-se por todos os cantos. O mármore róseo do arco da capela-mor abria em iris sobre aquela nuvem negra; e lá no tapete multicolorido, os padres, uns de batina e sobrepeliz de rendas, outros de alva e casula cor do sol, diziam segredos em voz alta, ora paravam, ora iam, ora vinham, ora assentavam,, misteriosos, vagarosamente, lendo em grandes livros, queimando incenso, e soltando para o espaço, como aves negras, umas após outras, as notas tristes do cantochão. A fumacinha como prateada do incenso perdia-se logo.
Algumas vezes punham a mitra, depois de beijá-la, sobre a fronte encanecida do diocesano, e este levantava-se com o seu rico capelo de ouro.. Aparecia, às vezes,, com o seu roquete de finíssimo bordado, com a batina roxa, e a sua murça que lhe dava uns ares reverentes, e o grosso trancelim com a cruz cravejada caindo sobre o peito e o anel de esposo da igreja, às vezes com pesadas capas de rei, com púrpura e arminhos; às vezes com a longa santidade das vestimentas pontifícias.
Mas os sentimentos dos fiéis não estava geralmente para esse recinto do sanctus sanctorum, para o simbólico erudito das cerimônias, para a piedade do ato, dentre aquela multidão a mais não poder, com o espírito lia-se os espíritos na direção ou no vago das pupilas, na atitude dos ouvidos, nos lábios em sorrisos, em conversação, ou em recolhimento, na fronte, no porte, no todo compungido ou disfarçado, religioso ou mundano.
Da capela do Sacramento, ouvia-se bater um martelo, ensurdecido, acolchoado e, de quando em vez, a rangedeira abafada de uns passos cautelosos. Naturalmente, preparos de novas cerimônias.
Grunhiam os pesados gonzos de uma longa porta sumida num dos corredores, entrando ou saindo alguém, e um jato de claridade branca e diurna, despejava-se pela igreja. Depois voltava o escuro.
Nas altíssimas janelas da nave, que dão para cima dos telhados, o dia salpicava apenas pela fímbria dos tristes véus pretos, e ornava de estrelas os buraquinhos do pano. Pedacinhos de claridade caiam esfarinhados, na parede. O órgão às vezes mugia, às vezes balava, ou soluçava e gemia, acompanhado pelo violoncelo, pelo ofclide, pela flauta e pelo delgado violino penetrante sob o grosso esvoaçar das vozes dos cantores.
Era uma provocação desabrida para as lágrimas.
E, enfim, no púlpito suspenso na parede, cujo caimento parecia repassado do esfuminho, apareceu o padre, um rapaz gordo, alvo, risonho, fazendo muito por tornar-se carrancudo com as largas mangas do seu roquete caindo sobre a toalha que arrodeava o corpo da tribuna.
Virou-se para o santuário e persegnou-se largamente. E, depois, com as duas mãos nas bordas do púlpito, debruçando-se para o auditório, começou, alto e pousado e vibrante:
- Et inclinato capite...tradit spiritum!...
E toda aquela multidão distribuida e apinhado pelos corredores, pelas varandas, pelo coro, pelo corpo da igreja, pelo pé dos altares, por todos os cantos, prestou olhos e ouvidos.
O pregador se destacava bem. Um pouco acima de seus cabelos crespos ficava o alto da porta, ornado de um frontão que desprendia uma auréola, como um sol desabrolhando. O corpo da tribuna findava em uma maçaneta, para baixo, como um cacho de uvas de ouro atado à ponta de uma cortina. E todos olhavam para cima, e o padre continuava na placidez da sagrada eloqüência.
De quando em vez saia-lhe como um raio trêmulo, como uma faísca elétrica entre os rebordos das nuvens aclarados e escurecidos momentaneamente.
E prosseguia a chuva abundante da palavra de Deus.
Como a chuva ensopa com o inverno e fazem nascer as sementes no agreste, assim as almas estremunhavam, acordavam e, metidas no sombrio, na luz coada, no morno, despertavam da carne pecaminosa e esterilizada...
Em dado momento, apareceu nas mãos do pregador uma tela pendurada, um lençol branco e nele estampado a imagem de um homem despido, com uma toalha nos rins.
E, em lágrimas, num trêmulo crescente, a mão vacilante, cheio de dor, o padre murmurava choroso:
- Ei-lo, ei-lo o vosso pai, o vosso amigo, o vosso irmão,, o vosso Jesus...ei-lo... assim maltratado, assim golpeado...Esta cabeça cheia de ciência, rasgada por uma coroa de espinhos; este coração fonte de amor, atravessado por uma lança; estes joelhos, que só se dobravam para levantar os mortos e curar os enfermos, descarnados até os ossos; estas mãos repassadas de divino eflúvio, esmagadas barbaramente por duros cravos; estes pés, que palmilharam sobre as ondas, conjuntamente arrepelados e arrebentados com um cravo dilacerante; estes ombros, vede-os cristãos, vede-os como ficaram no peso da cruz...vede-os..."
E a mor parte dos fiéis soluçava...Já não se via contínuo e embastido movimentos de leques pela superfície da multidão. Ouvia-se um guincho de uma mulher nervosa e o assoar do bendito muco do choro santo...
Sentia-se uma consternação inexprimível!
Eu ajoelhava prostrado ante a divina figura do Mestre e o meu olhar trespassava-lhe também o coração fonte do amor. Mísero pecador, sumido na multidão, quisera que me visse, que soubesse que eu lhe quero bem. E parecia de seu peito cair o sangue tão puro e verdadeiramente como caiu no Calvário. Eu tinha vontade de lhe gritar - Eu te amo porque tu sofres.
Entretanto, senti que no coração dele outro olhar estava abrigado, e que o meu espírito, que lá estava, pergunta - Que quereis? E quase o outro olhar me pergunta o mesmo.
Inquirimo-nos, entretanto, conjuntamente: - Aqui não é a fonte do amor?
E as duas almas, feitas uma para a outra, encontradas la dentro do coração de Jesus disseram-se: - Bebamos, pois, da fonte do amor!...
O padre continuava, mas nós não entendíamos. O meu corpo inane caia cada vez mais sobre os joelhos, numa adoração profundíssima. E do sudário, desaparecera o Jesus sanguinolento, para pintar-se ela com o seu vestidinho preto e e as suas pulseira de ouro, a olhar-me para meu coração soluçante.
O padre me apontava era para os lábios mudos de sentimento, e e para a sua fronte livre de pesadumbres.. E gritava-nos: - Amai, arrependei-vos do tempo perdido...
E eu apertava o meu peito com as duas mãos.
E adormecido, entorpecido, ignorante, alheio, tomado de dor e de ventura, ouvi as últimas palavras: et tradit spiritum...e entregou o seu espírito.
(1888)
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Vou....... mas volto!.................Um abraço!

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