sábado, 3 de março de 2012

DEPOIS DE "O ÓDIO"... "A PAIXÃO" :

CONTO DE OLIVEIRA PAIVA (1861-1892)...
Igreja do Pequeno Grande tendo, ao lado, o Colégio da Imaculada 
Conceição. A Igreja foi construída posteriormente ao colégio. Neste 
Colégio estudaram todas as irmãs de Oliveira Paiva, sendo que,
três delas tornaram-se Irmãs de Caridade.(Foto: Arquivo Nirez) 
Manuel de Oliveira Paiva nasceu em Fortaleza, em 22 de junho de 1861. Vivendo no seio de uma família extremamente católica, foi enviado muito cedo, aos 14 anos de idade, para cursar o Seminário do Crato, no Ceará. Na realidade, o referido seminário foi instaurado no ano de seu ingresso nele: 1875. Era o único aluno da capital, Fortaleza, todos os demais, da 1ª turma, saíram de cidades do interior do estado do Ceará.
Nas biografias, que até hoje lí, do escritor, consta como ele tendo "cursado" o seminário. No entanto, ele permaneceu no seminário por pouco mais de um ano. O motivo de sua saída, cujo teor é relatado em uma biografia inédita do escritor, elaborada por José Joaquim de Oliveira Paiva(1895-1977), (seu sobrinho materno e meu pai),  é bastante inusitada, e será assunto de uma postagem futura...

Depois de pouco tempo de sua saída do Seminário do Crato, Oliveira Paiva resolveu seguir a carreira militar no Rio de Janeiro. Paralelo aos seus estudos  na área de Engenharia, na Escola Militar, desenvolveu suas atividades intelectuais, escrevendo em jornais da própria corporação onde servia.
Acometido de tuberculose, algum tempo depois, retornou várias vezes à sua terra natal, para  o tratamento da doença. Numa de suas vindas, veio a falecer. Era o dia 29 de setembro de 1892,  e contava, apenas, 31 anos de idade. Deixou viúva, sua própria sobrinha, Tereza, com quem se casara dois anos antes, e uma filha, Jacinta, com 10 meses de idade.
Tereza, a "prima Tetê" como meu pai a chamava, casou-se em segundas núpcias, alguns anos depois. No dia 9 de outubro de 1892, em virtude de sua morte, o jornal "O Operário" , de Fortaleza, publicou um número especial com uma POLIANTÉIA, onde consta o depoimento de 30 amigos do escritor. Esse tema, também, será trazido a estas páginas, oportunamente.
Maria Isabel Paiva de Oliveira e Jacinta de oliveira
Paiva, mãe e filha de Manuel de Oliveira Paiva.
Jacinta, tornou-se freira franciscana, vindo a falecer
no ano de 1942, ano em que eu nasci. Há poucos
anos fiz pesquisa sobre sua vida religiosa. A causa
de sua morte, foi a mesma de seu pai: tuberculose.
(Foto: Arquivo próprio)
Vale aqui dizer que sua mãe, Maria Isabel, muito se  abateu, por ver seu sonho, de ter um filho padre, desfeito...Mais triste ficou, ainda, quando o viu partir para a Corte (como era chamado o Rio de Janeiro, por ser a Capital do Império, então). Ao vê-lo retornar algumas vezes a Fortaleza, mas doente, a pobre mãe sentia um misto de alegria e desventura...A morte prematura do filho, deixando-lhe uma neta órfã de pai, em tão tenra idade, veio tornar o quadro  ainda mais desolador...
O que consolava Maria Isabel, era ter, além da neta, mais um filho homem, João (poeta e músico), e seis filhas mulheres. Três, destas filhas, escolheram o  matrimônio, as outras três, optaram por serem freiras (Irmãs de Caridade, de São Vicente de Paulo). Estas três irmãs, iniciaram-se no apostolado do Colégio da Imaculada Conceição, cuja foto ilustra o início desta postagem.
Irmãs de Caridade. (Foto do blog  Acaraú para recordar) 

A PAIXÃO
(Por Manuel de Oliveira Paiva )

Daquela varanda ela assistia às cerimônias. É verdade que alí, por ser muito alto, sentia-se toda aquela calidez incômoda todos aqueles eflúvios do corpo humano viciando o ar e subindo invisivelmente a enrubecer-lhe a tez e a perseguir-lhe o nariguinho afilado; mas por si: o mesmo estava constantemente a agitar o seu grande leque de seda, que afastava-se e aproximava-se do seu coração como uma enorme borboleta negra.
Havia claridade pouca, suficiente porém para o livro da semana santa poder espelhar-se no olhar calmo e profundo e inocente, as carreirinhas de tipos muito negrinhos no papel branco.
Todavia, a falar a verdade, aqulas palavras não podiam despertar-lhe idéia alguma, visto como em um só peito não se podiam abrigar dois amores ao mesmo tempo pela lei física da impenetrabilidade.
E assim, descansava o olhar, que era o veículo por onde o seu espírito mais se impressionava, percorrendo vagarosamente o grande todo do templo. Tudo era vendado.
A vidraçaria pintada do coro impregnava de palor os lados do imenso vulto escuro do órgão. Os cantores, de preto, arrumavam-se entre os fiéis que invadiam o recinto a eles reservado, e nem o pavilhão de ofclide brilhava com o seu reflexo de arame.
De um lado, ali no coro, aglomeravam-se em ordem as educandas do colégio, e via-se o chapéu das irmãs de caridade, como grandes aves que querem voar. A ordem superior de varandas, bilateralmente, estava repleta, e a inferior, com os seus balaustres brancos e o seu coreto de linhas de cadeiras ascendentes.
Era como num teatro em que houvesse enchente à cunha.
As grossas colunas da nave pareciam caçapar-se ao peso das parede  altíssimas.
Grandes véus negros encobriam as duas capelas colaterais. Nas aras velas de cera de um amarelo sombrio e cru, em castiçais pretos e cada nicho estava transformado numa janela escura.
O doirado das obras de talha destacava-se apenas, bordando o custoso emolduramento dos altares como uns longínquos luzimentos mundanos.
La dentro da capela-mor as janelas de varandas auribrancas estavam prenumbradas. Do enorme pano que tocava no teto e erguia-se ao fundo do templo sentia-se baforar toda aquela escuridão que se equilibrava no ar, e dilatava-se por todos os cantos. O mármore róseo do arco da capela-mor abria em iris sobre aquela nuvem negra; e lá no tapete multicolorido, os padres, uns de batina e sobrepeliz de rendas, outros de alva e casula cor do sol, diziam segredos em voz alta, ora paravam, ora iam, ora vinham, ora assentavam,, misteriosos, vagarosamente, lendo em grandes livros, queimando incenso, e soltando para o espaço, como aves negras, umas após outras, as notas tristes do cantochão. A fumacinha como prateada do incenso perdia-se logo.
Algumas vezes punham a mitra, depois de beijá-la, sobre a fronte encanecida do diocesano, e este levantava-se com o seu rico capelo de ouro.. Aparecia, às vezes,, com o seu roquete de finíssimo bordado, com a batina roxa, e a sua murça que lhe dava uns ares reverentes, e o grosso trancelim com a cruz cravejada caindo sobre o peito e o anel de esposo da igreja, às vezes com pesadas capas de rei, com púrpura e arminhos; às vezes com a longa santidade das vestimentas pontifícias.
Mas os sentimentos dos fiéis não estava geralmente para esse recinto do sanctus sanctorum, para o simbólico erudito das cerimônias, para a piedade do ato, dentre aquela multidão a mais não poder, com o espírito lia-se os espíritos na direção ou no vago das pupilas, na atitude dos ouvidos, nos lábios em sorrisos, em conversação, ou em recolhimento, na fronte, no porte, no todo compungido ou disfarçado, religioso ou mundano.
Da capela do Sacramento, ouvia-se bater um martelo, ensurdecido, acolchoado e, de quando em vez, a rangedeira abafada de uns passos cautelosos. Naturalmente, preparos de novas cerimônias.
Grunhiam os pesados gonzos de uma longa porta sumida num dos corredores, entrando ou saindo alguém, e um jato de claridade branca e diurna, despejava-se pela igreja. Depois voltava o escuro.
Nas altíssimas janelas da nave, que dão para cima dos telhados, o dia salpicava apenas pela fímbria dos tristes véus pretos, e ornava de estrelas os buraquinhos do pano. Pedacinhos de claridade caiam esfarinhados, na parede. O órgão às vezes mugia, às vezes balava, ou soluçava e gemia, acompanhado pelo violoncelo, pelo ofclide, pela flauta e pelo delgado violino penetrante sob o grosso esvoaçar  das vozes dos cantores. 
Era uma provocação desabrida para as lágrimas.
E, enfim, no púlpito suspenso na parede, cujo caimento parecia repassado do esfuminho, apareceu o padre, um rapaz gordo, alvo, risonho, fazendo muito por tornar-se carrancudo com as largas mangas do seu roquete caindo sobre a toalha que arrodeava  o corpo da tribuna.
Virou-se para o santuário e persegnou-se largamente. E, depois, com as duas mãos nas bordas do púlpito, debruçando-se para o auditório, começou, alto e pousado e vibrante:
- Et inclinato capite...tradit spiritum!...
E toda aquela multidão distribuida e apinhado pelos corredores, pelas varandas, pelo coro, pelo corpo da igreja, pelo pé dos altares, por todos os cantos, prestou olhos e ouvidos.
O pregador se destacava bem. Um pouco acima de seus cabelos crespos ficava o alto da porta, ornado de um frontão que desprendia uma auréola, como um sol desabrolhando. O corpo da tribuna findava em uma maçaneta, para baixo, como um cacho de uvas de ouro atado à ponta de uma cortina. E todos olhavam para cima, e o padre continuava na placidez da sagrada eloqüência.
De quando em vez saia-lhe como um raio trêmulo, como uma faísca elétrica entre os rebordos  das nuvens aclarados e escurecidos momentaneamente.
E prosseguia a chuva abundante da palavra de Deus.
Como a chuva ensopa com o inverno e fazem nascer as sementes no agreste, assim as almas estremunhavam, acordavam e, metidas no sombrio, na luz coada, no morno, despertavam da carne pecaminosa e esterilizada...
Em dado momento, apareceu nas mãos do pregador uma tela pendurada, um lençol branco e nele estampado a imagem de um homem despido, com uma toalha nos rins.
E, em lágrimas, num trêmulo crescente, a mão vacilante, cheio de dor, o padre murmurava choroso:
- Ei-lo, ei-lo o vosso pai, o vosso amigo, o vosso irmão,, o vosso Jesus...ei-lo... assim maltratado, assim golpeado...Esta cabeça cheia de ciência, rasgada por uma coroa de espinhos; este coração fonte de amor, atravessado por uma lança; estes joelhos, que só se dobravam para levantar os mortos e curar os enfermos, descarnados até os ossos; estas mãos repassadas de divino eflúvio, esmagadas barbaramente por duros cravos; estes pés, que palmilharam sobre as ondas, conjuntamente arrepelados e arrebentados com um cravo dilacerante; estes ombros, vede-os cristãos, vede-os como ficaram no peso da cruz...vede-os..."
E a mor parte dos fiéis soluçava...Já não se via contínuo e embastido movimentos de leques pela superfície da multidão. Ouvia-se um guincho de uma mulher nervosa e o assoar do bendito muco do choro santo...
Sentia-se uma consternação inexprimível!
Eu ajoelhava prostrado ante a divina figura do Mestre e o meu olhar trespassava-lhe também o coração fonte do amor. Mísero pecador, sumido na multidão, quisera que me visse, que soubesse que eu lhe quero bem. E parecia de seu peito cair o sangue tão puro e verdadeiramente como caiu no Calvário. Eu tinha vontade de lhe gritar  - Eu te amo porque tu sofres.
Entretanto, senti que no coração dele outro olhar estava abrigado, e que o meu espírito, que lá estava, pergunta - Que quereis? E quase o outro olhar me pergunta o mesmo.
Inquirimo-nos, entretanto, conjuntamente: - Aqui não é a fonte do amor?
E as duas almas, feitas uma para a outra, encontradas la dentro do coração de Jesus disseram-se: - Bebamos, pois, da fonte do amor!...
O padre continuava, mas nós não entendíamos. O meu corpo inane caia cada vez mais sobre os joelhos, numa adoração profundíssima. E do sudário, desaparecera o Jesus sanguinolento, para pintar-se ela com o seu vestidinho preto e e as suas pulseira de ouro, a olhar-me para meu coração soluçante.
O padre me apontava era para os lábios mudos de sentimento, e e para a sua fronte livre de pesadumbres.. E gritava-nos: - Amai, arrependei-vos do tempo perdido...
E eu apertava o meu peito com as duas mãos.
E adormecido, entorpecido, ignorante, alheio, tomado de dor e de ventura, ouvi as últimas palavras: et tradit spiritum...e entregou o seu espírito.
(1888)


*******

Vou....... mas volto!.................Um abraço!

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

MANUEL DE OLIVEIRA PAIVA (1861-1892)...

...MEU TIO-AVÔ PATERNO:
romancista, poeta, contista...
Manoel de Oliveira Paiva (1861-1892), em seu
uniforme de Cadete, da Escola Militar do Rio de Janeiro,
provavelmente por volta de 1878...(Foto: arquivo próprio).
João Francisco de Oliveira, pai do Escritor...
(Foto: arquivo próprio)
Maria Isabel de Paiva Oliveira, com sua
neta Jacinta, ao colo...Mãe e filha de
Manuel de Oliveira Paiva.
(Foto: arquivo próprio)

Quem é leitor "cativo" deste blog, já conhece esses  
personagens da (minha) vida real, cujas fotos estão expostas acima...Em postagens anteriores os descrevo, em detalhes, e mostro o  meu grau de parentesco com todos eles. Nessa publicação, trarei a relação nominal da "OBRA COMPLETA  DE OLIVEIRA PAIVA" e, apenas, um de seus CONTOS - "O ódio" . Sua biografia, para quem se interessar em conhecer esse escritor cearense, poderá ser encontrada na WIKIPÉDIA. Toda a sua obra - Romances, Contos e Poesias - está, integralmente, na Wikisource (internet)...com  a exceção de uma peça teatral, "Tal filha, tal esposa"...que ficou inédita, junto a outros poemas e contos...Perderam-se, no tempo...


Obra completa, de  Oliveira Paiva...


CONTOS:
* A barata e a vela (1887)
* A melhor cartada (1887)
* Corda sensível (1887)
* O Ar do vento (1887)
* O Ódio (1887)
* Pobre Moisés que não foste(1887)
* Variação sobre um tema de Buffon (1887)
* De pena atrás da orelha (1888)
* De preto e vermelho (1888)
* A paixão (1888)
* Ao cair da tarde  


ROMANCES:
* A Afilhada (1889)
* Dona Guidinha do Poço (1891)


POESIAS:
Nota de Oliveira Paiva para A tacha maldita:
Escutem...
Este livro é um tributo de homenagem que a LIBERTADORA ESTUDANTIL frente a PROMOTORA DA INSTRUÇÃO DOS LIBERTOS e à  LIBERTADORA CEARENSE. A esta porque libertou o escravo, àquela  porque instruiu o liberto. Seja. Obedecemos, apenas, a nós mesmos. Sejam porém sinceros com
M. DE OLIVEIRA PAIVA.
NOTA MINHA (Lúcia Paiva):
Vejam...
Manuel de Oliveira Paiva, meu tio-avô paterno, foi dos mais atuantes ABOLICIONISTAS CEARENSES...


* A tacha maldita  - subdividido em: 
. Primo
. Secundo
. Tertio
. Quarto
. Quinto
. Sexto
. Sétimo
. Oitavo
. Nono
. Décimo


* Vinte e cinco de março
   O Sono
   . O séquito
   . Sepultação
   . Memoração


   A visão 
   . A Ilha da Quimera
   . Pátria


* Sons de viola
 . Na feira
 . Quem pode, pode, bem-te-vi!
 . As ninhas cantigas
 . Na beira do lago
 . Gente alegre
 . O meu coração
 . Tua alma em flores
 . À tardinha
 . Uma paisagem
 . Bandos tristes
 . Vida!


* Aos 55
   . Poesia publicada originalmente no jornal O Libertador, de Fortaleza, em 1884
     . Deputados  gerais negreiros que negaram mensão honrosa à província do Amazonas
(Fonte: Wikisource)


Nesta foto, estão alguns membros da Sociedade Libertadora Cearense. 
Manuel de Oliveira Paiva  é o 1º sentado, à esquerda de quem olha.
Na fila em pé, o 3º da direita para a esquerda é Antônio Bezerra de Menezes 
(historiador, poeta, escritor...)meu tio-avô materno. No século XX, em 1932, 
as famílias Oliveira Paiva e Bezerra de Menezes (em Fortaleza-Ceará), se
 "uniriam", com o casamento de meu pai (José Joaquim de Oliveira Paiva)
com a minha mãe (Maria José Bezerra de Menezes). Meu pai era sobrinho
materno do Abolicionista Manuel de Oliveira Paiva; minha minha era 
sobrinha paterna do, também, Abolicionista Antonio Bezerra de Menezes.
(Foto: Arquivo próprio)

Desenho de um "Navio Negreiro". Desconheço a sua autoria.
(Imagem do google). Apenas, pra ilustrar o conto "O Ódio" ,de
Manuel de Oliveira Paiva.

O ÓDIO
(por Manuel de Oliveira Paiva)


Junto à amurada engoiava-se uma gaiola de paus, como um pêndulo, sombras de velas e cordagens iam e vinham vagarosamente ao bel prazer  da flutuação.
Rondava dentro da jaula um gato maior que um cachorro grande. Perto, quando clareava, reluzia o olhar de um negro, acocorado no sopé do mastro, com as mãos cruzadas abraçando os joelhos.
Via-se bem o animal preso, movendo-se com pés de seda e garbo de mulher.
Passeava desdenhosamente. Amarelo fulvo, lindamente mariscado com patacos pretos, como não há veludo.
Quando alguém aproximava-se, a fera largava uma roncaria por entre presas, e dava botes aos pares, explodindo bufidos espantosos.
O comandante muitas vezes desanuviava a sua cerveja fazendo-se  espectador da eterna aversão e tolhido orgulho do bicho feroz, de cujo cativeiro abusavam; faziam-se trejeitos, cutucavam com um bastão, davam-lhe um pau para morder, de modos que o animal parecia chorar de raiva.
O piloto, muito chalação, desandava-se descompostura:
-  Anda lá marafona! Pensavas qu'isto qu'era furna? Olha que ela pega-o comandante!
E daí, amabilizava com uns nomes feios - filha desta, filha daquela, como se fosse entre duas pessoas:
-  Eu não lhe tenho medo, porque lá arrebentar esse nicho é o que ela não pilha.
Nessa noite, o negro notou um lume que boiava no escuro do oceano, como um pirilampo; o seu pensamento, que por uma simpatia de gênios e de condição costumava ater-se à onça presa, apegava-se agora a esse nonada fosforescente.
Muito depois, o foguinho crescia, e o negro foi obrigado de ao pé do mastro, por via das manobras de bordo. O diabo do lume tinha coisa: o navio evitava-o como se estivesse cheio de pólvora e essa tocha distante fosse uma faísca a perseguí-lo perversamente.
O negro, sentindo que havia um perigo qualquer volveu de novo o pensamento para o tigre. Antegustava  uma satisfação feroz, prevendo um belo horror de destruições. Apertavam as vozes de comando, e o mestre enfurecia - quisera ter os punhos do mundo inteiro para torcer o rumo do vento! Era uma vela meter-se onde eles queriam e bambeavam com os paroxismos de um sossobrante. Havia um demo no espaço negro a embirrar com o barco.
O comandante e oficiais ainda estavam bêbedos da orgia que tiveram ao sair do porto.
O escravo, supersticioso, jurava entre si que que o lume que se aproximava era o espírito maligno, em feitio de macaco, às cabriolas de onda em onda, com uma brasa na boca. Ele via até os ziguezagues na trajetória do farol movediço.
Assombrado pela certeza do perigo, ele descera, e voltou com um machado. No pescoço conservava o seu amuleto. Estava armado para o desconhecido. Fazia muito frio. começou a espalhar-se um medo, insinuativo no meio da treva, e mais tarde o pavor.
De repente a luzinha estava mesmo em cima deles, emaranhada no porte alevantado de um paquete a vapor.
Um estremenção prolongado, como um desabamento, saiu do navio todo, que reagiu nas ínfimas veiaduras do cavername. O pessoal ficou um instante bestializado. E, depois, como um bando turvo de vampiros no seu voar frouxo e mortuário, saia de todos os poros a idéia de morte., O vapor, cujo era o farol fatídico, havia metido a pique o barco, e talvez tivesse também sossobrado, matando-se sem reconhecer-se, arrastados pelo demônio das colisões marítimas, um daqueles que ao cair do céu ficaram nos ares prestando ao gênero humano o relevante serviço de fazer-lhe o mal.
O negro levou as mãos à cabeça. Sob a noite estrelada, ele via  os borbolhões  do horrendo por toda parte. Escaleres ao mar, salva-vidas, aconchego de desespero dos que se amam, considerações para os delicados, heroísmo dos fortes, num rápido.
Dele não se lembravam. A noite de sua pele casava com a do espaço entremeadas pela de sua vida. Sua alma hostil armara-o de machado, porque ele, desde menino, ouvia falar de corso e de piratas. Isto sim, lhe seria um triunfo. Entanto, restava-lhe boiar, e ainda se fosse possível. Não podia prestar serviços, porque ninguém se entendia, assim nas goelas da morte. E achando-se de braços cruzados, sobre o abismo, ele, o forte, o valentão, o calmo, o herói, o hércules. No véu das sombras viu bruxulear os olhos do tigre. Ah! e a fera não teria direito ao salvamento? A desordem a bordo era insuportável. Um salve-se quem-puder! E o possante bruto humano ergueu o machado e descarregou um golpe sobre a jaula. Ébrio de sua majestade, arriou novo golpe, e repetiu. A fera recuara para o fundo, e quando viu o rombo que a desagrilhoava, atirou-se...ávida, por beber sangue e doida de fome. Rolaram no convés a onça atacada com o escravo.
O navio empinava para a profundez. Na voragem, a fera retornara à gaiola, que flutuava nas águas, enquanto o cadáver do escravo descia no abismo, talvez com a íntima satisfação de ter libertado uma fera, entre eles perdurando uma certa simpatia de gênios e de condição.
Era ele que tratava do tigre. Amava-lhe o rancor eterno. Achava-o formoso, tão dourado, tão liso, tão forte!
Comprazia-se em matar-lhe a sede e a fome. Amava-o porque o bicho indicava ser insensível ao amor. E foi um grande prazer desaparecer da vida deixando em seu lugar um bruto que era a concretização do ódio, humor necessário à vida social, como o fel à vida individual! 
(1887)


*******


IMPORTANTE!

1- ABOLIÇÃO NO CEARÁ - A  campanha abolicionista no Ceará ganha a adesão da população pobre. Os jangadeiros encabeçam as mobilizações, negando-se a transportar escravos aos navios que se dirigiam ao sudeste do país. Apoiados pela Sociedade Cearense Libertadora, os "homens do mar" mantêm sua decisão, apesar das fortes pressões governamentais e da ação repressiva da polícia. O movimento é bem sucedido: a Vila do Acarape (CE), atual Redenção, é a primeira a libertar seus escravos, em janeiro de 1883. A escravidão é extinta em todo o território cearense em 25 de março de 1884.

2- A Lei Áurea, extinguindo a escravidão no Brasil, só seria assinada, pela Princesa Isabel, em 13 de maio de 1888.
(Fonte: www.conhecimentosgerais.com.br).


*******


Agora, estou indo,.................mas eu volto!.................Um abraço!                            

sábado, 18 de fevereiro de 2012

ESTÁ FAZENDO UM ANO...

HOJE, É O 1º NATALÍCIO...
...Da Cadeirinha de Arruar!!!
Obrigada, aos mais de 33 mil acessadores!!!
Obrigada, aos mais de 200 seguidores!!!
OBRIGADA  a todos, pelos incontáveis comentários!
Estamos em pleno CARNAVAL, festa do povo, estamos
também em FESTA, na CADEIRINHA....porquanto,
sem os leitores, CATIVOS ou FORTUITOS, não seria
 possível tanta satisfação, com esses agradáveis  RESULTADOS...
neste maravilhoso "SÁBADO GORDO" ...


...F E L I Z   C A R N A V A L !!!






$$$$$$$$$$$$$$$$$$




     Já estou indo................mas eu volto! ............. BEIJINHOS!!!

domingo, 12 de fevereiro de 2012

EVA DE OLIVEIRA PAIVA,

MINHA PRIMA POETISA...
Nesta bela edificação funcionou a antiga Faculdade de Farmácia e
Odontologia,do Ceará, onde a Poetisa Eva Paiva graduou-se  Farmacêutica.
Hoje, abriga o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.(IPHAN).
Localiza-se vizinho ao Theatro José de Alenacar, na praça de mesmo nome...
(Foto: Panoramio)
Eva de Oliveira Paiva(1901- 1989) nasceu em Fortaleza, em um dia 3 de dezembro . Era filha de minha tia-avó paterna, Luiza de Oliveira Paiva (a querida tia Luizinha, do sítio da Cachorra Magra, junto à Lagoa do Tauape) e de meu tio paterno José Joaquim de Castro Paiva(Zeca) seu primo. Meu pai, que era filho do 2º casamento do avô de Eva, também se chamava José Joaquim, como o pai de ambos, nosso avô...Entenda: a mãe de Eva, era irmã de minha avó; o pai de Eva, era irmão de meu pai. É que nosso avô, era tio da mãe de Eva, Luiza, e de minha avó, Rosa, com quem contraiu segundas núpcias...Ou seja: meu pai, era afilhado, cunhado e sobrinho da mãe da poetisa, sendo, portanto, seu primo, pelo lado materno,seu e tio, pelo lado paterno...


É que, "de primeiro", era assim: casavam-se, primos com primas, tios com sobrinhas...causando múltiplos parentescos, entre si...


A instrução primária, da menina Eva, foi ministrada por sua própria mãe, intelectual e professora. Luiza e Rosa eram irmãs, dentre outros, do escritor cearense, Manuel de Oliveira Paiva (1862-1891).
Foi no Liceu Cearense, em Fortaleza, que a futura poetisa cursou humanidades, como aluna avulsa, de 1922 a 1925, ingressando, em 1924, na Faculdade de Farmácia e Odontologia do Ceará, onde recebeu o grau de Farmacêutica a 30 de dezembro de 1926, sendo nomeada, em janeiro de 1929, Preparadora da referida Faculdade. No mesmo ano, em outubro, entrou para o Corpo de Técnicos da Saúde Pública, onde exerceu o cargo de farmacêutico-chefe da Secção de Farmácia.


Seus primeiros ensaios poéticos, se deram no órgão  "A idéia" do Liceu Cearense  -  vindo a colaborar com vários jornais de Fortaleza e no Almanaque de Lembranças Luso- Brasileiro.


Ilustrando, a poesia ÁGUA CORRENTE, de
  EVA PAIVA, com uma "cachoeira cearense",
do município de TIANGUÁ - CEARÁ..
(Foto: Panorâmio)
Água Corrente 

Água corrente, água cristalina
Conta do inverno as doces alegrias
Traduz nesse teu canto, as louçanias
Os vendavais da chuva e da neblina


Nesse canto de gama adamantina
Descanta as nênias dessas tardes frias
As brumas das manhãs tão fugidias
Essa tristeza insólita e divina!


Canta esse canto rústico do inverno
As negras noites em que o fevônio tenro 
Gela de frio o coração da gente...


Canta, que eu adoro essa canção das águas
E julgo ouvir gemer as minhas mágoas
E penso que és meu pranto, água corrente!
(Água Corrente: de Eva Paiva)




NOTAS:
1-Fontes: Radiorama (livro de versos); Crítica e referências:Aldo Prado (Os novos do Ceará, no Primeiro Centenário da Independência do Brasil-pp.67a 69); Hélio Caracas("Uma nova poetisa cearense" - Diário do Ceará, 20/04/1922);     site:www.literaturareal.blogspot.com ; 
  
2- Conheci, minha prima Eva Paiva, ainda trabalhando como Farmacêutica, morando com suas irmãs, Ida, Ave e Isa, à Av. dos Expedicionários,em Fortaleza, em frente à murada do 23º BC (23º Batalhões de Caçadores), no aprazível bairro Benfica. 
Das quatro irmãs, filhas da tia Luizinha, a única que casou-se foi a prima Ida (com um primo - Alexandre). As demais, inclusive a poetisa Eva Paiva, permaneceram solteiras. Esse casamento, de Ida com o Alexandre, "rendeu" uma interessante história, que contarei aqui, a qualquer dia desses...(após "licença" da família)...
Tia Luizinha e o tio Zeca, tiveram, além das quatro meninas, seis meninos: Noel,Vicente, Mário, Flávio, Aramis e Athos.
Papai contava que nasceram mais duas crianças do casal, que não sobreviveram, e que  chamar-se-iam Porthos e D'Artagnan...
Na casa dos Paiva, lia-se, também, literatura francesa, notadamente de Alexandre Dumas...
 D'Artagnan e os Três Mosqueteiros ( Porthos, Athos
e Aramis). Imagem: Wikipédia...
Apenas o primo Mário permaneceu solteiro, fazendo companhia à sua mãe, a minha querida tia-avó Luizinha, por toda a sua vida, residindo, os dois, naquele belo casarão do imenso sítio, junto à Lagoa do Tauape...lá pras bandas da Cachorra Magra....no aprazível Benfica...



###########




Já estou indo>>>>>>mas eu volto<<<<<<<<Um abraço!

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A IMPORTÂNCIA DO TEATRO, PARA A VIDA ...E...

A "PORÇÃO" ATRIZ, de Lúcia Paiva !

Fui uma criança imensamente tímida mas, assim mesmo, sendo eu a irmã mais nova de seis irmãos, sofrendo da parte deles forte influência, fui me "desasnado", como dizia a minha mãe, tornando-me mais solta, mais desinibida, em público. A influência maior, foi de  meu irmão mais velho, José Maria, que tem 10 anos mais do que eu. Tanto ele, quanto os dois que o seguiram, nos nascimentos lá de casa, o José Maurício e o Carlos Alberto, desde garotos passaram a ter grande interesse em cinema, teatro, jornalismo...  
Lembro-me de quando o  mano mais velho, que chamo de Zemaria, junto a  alguns amigos da  nossa "redondeza", e mais os dois outros irmãos, resolviam selecionar "atores" e atrizes" para a representação de alguma peça de teatro que, àquela época, final dos anos 1940, chamava-se  "drama".  Assim, de drama em drama, íamos desenvolvendo os nossos possíveis "talentos" para a "ribalta".
Dos três irmãos homens, o Zemaria tornou-se B. de Paiva (Bezerra de Paiva) e, até hoje é Teatrólogo, às portas de seus 80 anos de idade. O  Maurício, virou  cinéfilo, chegando a assistir 3 a 4 filmes diários nos cinemas do centro de Fortaleza, que eram muitos, pelos anos 1940, 50, 60...O Carlos Alberto, passou a "professar" o Jornalismo,a Publicidade e oTeatro,  com o nome  Carlos Paiva. Das três irmãs, apenas eu, cultivou um pouco mais, até a juventude, a tal "porção" atriz, iniciada na infância, em meio às brincadeiras do "grupo familiar"....

Nosso 1º Teatro, foi  o quintal de nossa casa, na Rua Barão de Aratanha 232 (BA, 232). Era um "Teatro de Variedades" onde, no programa, havia sempre números musicais, danças, poesias e textos dramatizados,sendo  estes em forma de monólogos ou com um elenco de dois ou mais atores e atrizes. O "pano de boca" era uma grande colcha de cama, fornecida por minha mãe, a já bem conhecida Dona Mazé. Dois grandes pregos, martelados em cada lado do muro, seguravam a corda por onde passava a "bela" cortina teatral. Na verdade, eram duas: uma verde e outra vermelha, para se alternar, quando  precisassem de lavagem. Foram muitos, os "espetáculos" na BA 232, com direito à venda de ingressos, retorno de bilheteria e muitos aplausos, aos futuros artistas que subiriam aos Palcos dos Teatros de Fortaleza. Alí, na "BA, 232", estava nascendo um "promissor elenco" para as artes cênicas cearenses: José Humberto, Tarciso Tavares, B. de Paiva, Carlos Paiva, Glice Sales, Marcos Miranda, J. Narbal, Lúcia Paiva...e tantos, tantos mais!!!
Esta rua, que tem seu início bem à frente da Igreja do Sagrado Coração
de Jesús, é a Rua Barão de Aratanha. Nessa foto aparece, apenas, o primeiro
quarteirão. A casa de nº 232, localiza-se dois quarteirão anterior a esse. Por ser
um número par, sabe-se que ela fica do "lado da sombra", ou seja, onde o sol incide
apenas pela manhã. Esta foto, portanto, foi tirada no período da tarde, como se vê no
último prédio, o da esquina com a Av. Duque de Caxias. (Foto: Panorâmio)

Por volta de 1954, o grupo da "BA 232", começou a se dispersar... Alguns, partiram para ouras "plagas", em busca de trabalho e de sucesso. Eu, ficando em Fortaleza, me "inseri" em um grupo dirigido por meu amigo Francisco Falcão (o Chico). Era o ano de 1957. Nessa época, eu já não morava na Rua Barão de Aratanha, mas na Rua Sadanha Marinho, 727, no então Bairro José Bonifácio.Naquele ano, sob a direção do Chico, montamos uma peça infantil, "A Revolta dos Brinquedos", na qual eu interpretava a Bailarina (que era um dos "brinquedos revoltados").  A temporada do espetáculo foi realizada no teatro do Colégio São Rafael, na Av. do Imperador. 
Foto atual do Colégio São Rafael, onde há um teatro, em um desses
blocos.  Não consegui fotografar o teatro, que seria o mais 
importante, para essa matéria e pelo fato de vir a revê-lo.
(Foto: Panoramio) .
Enquanto encenávamos essa peça, passamos a ensaiar  outra, também  infantil: A Onça e o Bode, em que eu interpretava a Onça. Perseguimos e conseguimos, a muito custo, que  o Theatro José de Alencar (TJA)  fosse o palco de estreia. A "sorte" estava conosco : estreiamos, prosseguindo  numa pequena temporada, neste teatro...o mais importante de Fortaleza, pela beleza e pela idade centenária, completada no ano 2010...
Theatro José de Alencar, visto à noite. (Foto: Panoramio)
Parte interna do  do TJA. (Foto: Panoramio)
Visão, de fora, do Balcão Nobre, Frisas e Camarotes...
(Foto: Panoramio)
Bela visão do TJA, em dia de "casa cheia": plateia do térreo, frisas
balcão nobre , camarotes e "torrinha" totalmente lotados. BRAVO!!!
(Foto: Panoramio)
Visão do Balcão Nobre, Frisas e Camorotes, pelo lado interno
(Foto: Panoramio).
Teto do Theatro José de Alencar.Veja mais, sobre esse centenário
teatro, na Wikipédia...(Foto: Wikipédia)
SEM PALAVRAS!!!

Atuei no palco do TJA nas seguintes peças:  "A Onça e o Bode",  "Auto da Compadecida", "O Mártir do Gólgota" e em "Liberdade Liberdade".Não tenho programas e fotos das peças em que atuei. Aliás, guardo comigo  apenas  o programa de uma delas ,uma infantil, que mostrarei ao final deste texto. A "tal" peça infantil, foi encenada em 1969  em um teatro "desconhecido", pelo grande público: o Teatro Anchieta, situado à Rua Gonçalves Lêdo, nº 88, que nos foi cedido, para a temporada, pelos padres Moisés e Campos, da Comunidade Paroquial Cristo Rei.

Pois bem: no início da década de 1960, "encarnei" a personagem "A Compadecida", na peça Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna, com direção do Chico Falcão. (Cadê o Chico???)...A última vez que o vi, foi no Rio de Janeiro..."pelejando" pela vida...
Em período de semana santa, por dois ou três anos consecutivos, "fui" a Virgem Maria, na peça " O Mártir do Gólgota", também na década 1960, dirigida por B. de Paiva (o meu mano Zemaria). No ano de 1967, em pleno regime militar no Brasil (Ditadura), "figurei" na peça "Liberdade, Liberdade" que, no Ceará, por incrível que isso possa parecer, não sofreu "cortes" da censura (milagrosamente!!!).Nessa peça, eu apenas dançava, ao som da música "Estatuto da Gafieira", na voz  gingada de Jorge Veiga... 
Meu parceiro de palco, na gafieira, era o então "apenas" ator, Aderbal Júnior que, anos depois, tornou-se um excelente diretor de teatro e, hoje, "atende" pelo nome  de Aderbal Nunes Freire. Ele "criou asas" e foi para o Rio de Janeiro, como muitos cearenses, inclusive eu, no ano de 1970... Seu sucesso é retumbante, como um dos melhores diretores teatrais brasileiros...

Depois de Liberdade, Liberdade, desempenhei uma "mulher de Lorca" na peça Bodas de Sangue. Acredito que esse tenha sido meu melhor papel  no teatro. Nele, tive a chance de fazer um DRAMA de verdade, aliás uma TRAGÉDIA, além de me "revelar" "CANTRIZ", ao entoar uma bela canção de ninar. Ao ponto de o maestro, que dirigia a parte musical(Orlando Leite), me aconselhar a estudar canto, por ter "descoberto", em mim, uma voz rara de contralto.  Mas eu "perdi o bonde" do bel canto....não fui me aperfeiçoar,nem no teatro, nem na música... lamentavelmente!!!
Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno - da  Universidade
Federal do Ceará- UFC. (Foto do ICA- Instituto de Cultura e
Arte - da UFC)
Palco e plateia do Teatro Paschoal Carlos Magno, da UFC.
(Foto: Acervo do Arquivo ICA-UFC)
Bodas de Sangue, teve a sua temporada no Teatro Universitário, da Universidade Federal do Ceará. Hoje, esse teatro leva o nome do grande Paschoal Carlos Magno...criador do Teatro do Estudante, e do Teatro Duse, no Rio de Janeiro...dentre outros colossos....
Poeta, Romancista, Dramaturgo, Embaixador,
Paschoal Carlos Magno (1906-1980), a quem
tive a  HONRA de" ter" na plateia, na estreia da
peça "BODAS DE SANGUE", no teatro que hoje
leva o seu nome...(Foto: Acervo do Arquivo da
Família Carlos Magno - Rio de Janeiro) 
Depois da temporada de Bodas de Sangue, com a presença de Paschoal Carlos Magno, na estreia da peça, dirigida por B. de Paiva, em Fortaleza, o elenco do Teatro Universitário foi ao Rio de Janeiro,  participar do Festival de Teatro do Estudante apresentando-se, "hors concours" , no Teatro Glauce Rocha...
Teatro Glauce Rocha, no edifício da FUNARTE, na
Avenida Rio Branco, centro do Rio de Janeiro.
(Foto: acervo  FUNARTE)
Palco do Teatro Glauce Rocha (Foto: Acervo FUNARTE)...

Certa vez, vindo eu de férias para Fortaleza,  já então residindo no Rio de Janeiro, onde permaneci 25 anos, recebi um convite "desafiador" do diretor da "Comédia Cearense", Haroldo Serra, para ir, em turnê, até ao Cariri - Juazeiro, Crato e Barbalha -  substituindo a atriz principal, no papel de Madalena, na peça "O Morro do Ouro"....Aceitei o desafio, decorei o texto e  lá fomos, rumo ao Cariri, levando a peça de Eduardo Campos, em curtíssima temporada: uma noite, em cada cidade - sexta feira no Crato, sábado  em Juazeiro e domingo em Barbalha. Valeu, a EXPERIÊNCIA!!!

No  meu "currículo teatral" , a peça  que mais deixou-me saudades foi a infantil "Crack, Bang, Flash". Este título, seria a onomatopeia dos sons produzidos, num ato de violência física, por indivíduos aos socos recíprocos... digamos assim!!!...Essa peça, foi escrita por meu irmão Carlos Paiva,"inspirada" em histórias de quadrinho da época: década de 1960. A temporada dessa peça foi EXCEPCIONAL, com "casa" sempre cheia, aos sábados e domingos,no Teatro Anchieta, na Rua Gonçalves Ledo, 88, no bairro Aldeota. No espetáculo,, eu fazia um personagem menino - o Super Baby. Era tal, o "sucesso", que fui convidada, pelo publicitário Tarciso Tavares( o querido TT - amigo desde a BA 232, que morava na casade nº 200 da BA...), para fazer uma propaganda da loja Ocapana, de roupas infantis, "ao vivo", em preto e branco, na TV CEARÁ. 
Eu, "travestida" de Super Baby, falava  o texto da propaganda e, ao final, fazia uma "chamada", para a garotada de Fortaleza ir assistir à peça. Valeu-me um bom "cachê". Como disse acima, o programa da peça infantil "Crak, Bang Flash", foi o único que me restou. Guardo--o com carinho... Ao menos isso, assim poderei "comprovar" que, realmente, em algum tempo do passado, fui atriz de teatro...
Eis, o programa! Atentem para um
detalhe: o personagem Bil Quadrinho,
que que forçava os seus comandados a
serem MAUS, sentado em uma PRIVADA,
lendo história em quadrinho, se preparando
para as maldades.O desenho, é do artista
plástico e escritor, AUDIFAX RIOS, grande 
colaborador do CARLOS PAIVA(de saudosa memória, 
ator,autor diretor da peça "CRAK, BANG FLASH"...

Este é o "verso" do programa,
com apenas uma folha. O texto
é de Carlos Paiva, que dirigiu e
atuou na peça.Confira meu
nome, no ELENCO....acima!!!
Pensando bem, até que a minha "porção" atriz não foi tão pequena assim.... Apenas, o "acervo"  que pssuo, resume-se  nesta minúscula, mas interessante, folha de papel , que conta um lindo pedaço da minha vida...Nessa época, 1969, eu estava prestes a me graduar como Pedagoga...."Interrompi" minha carreira de atriz, mas nunca deixei de desempenhar minha "porção" atriz, também, em sala de aula, ao ministrá-las...

Para finalizar a postagem, trago, para ilustrar, uma foto minha, da época em que interpretei o "SUPER BABY"...Reparem o meu cabelo, bem curtinho, para "convencer", melhor,  às crianças da plateia, de que eu era, realmente, um  menino... 
Agora, vem a velha pergunta: "É a VIDA que imita o TEATRO ou é o  TEATRO que imita a VIDA ?
 
Lúcia Paiva, "decorando" as "falas"de seu personagem
Super Baby, do texto da peça infantil "Crak Bang Flash",
de Carlos Paiva (seu irmão), encenada em1969...
(FOTO: AUTO RETRATO )....ACREDITEM!!!


((((((((((((()))))))))))))



Já vou indo............................mas eu volto!  Um abraço!




sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

NO FINAL DA RUA DA CACHORRA MAGRA....

 JUNTO AO SÍTIO DA TIA  LUIZINHA,
 HAVIA UMA LAGOA...
Esta, é a Lagoa do Tauape, onde a menina Luma e suas irmãs 
brincavam, quando iam visitar a querida tia Luizinha. Do lado direito,
da foto,acima dessa ribanceira, ficava o enorme sítio, tendo bem à
frente, um belíssimo casarão...(Foto: Arquivo Nirez).
 
A LAGOA DO TAUAPE
(CONTO MEMORIALISTA, DE LÚCIA PAIVA)

De primeiro, lá para as bandas da Cachorra Magra, havia uma lagoa: a Lagoa do Tauape. Uma menina, chamada Luma, saía com seu pai e suas duas irmãs, todos os sábados, cedinho da manhã, para visitar a velha e querida tia Luizinha, que morava, com seu filho Mário, em um enorme sítio, bem juntinho da lagoa. Era como se a lagoa, fosse o jardim do casarão do sítio.

As três meninas, deixavam o pai a conversar com a tia  e corriam, em direção à beira da lagoa para, só depois, mergulharem na doce água morna.. Alí ficavam, uma hora ou pouco mais, retornado, em seguida, ao aprazível sítio. Era quando o primo Mário lhes oferecia variados tipos mangas: manga rosa, tamaracá, jasmim, coité...e, até, a miúda manguita, conhecida também por carlotinha...tão pequena e tão doce, quanto a infância...

Ao fim da visita semanal, à idosa tia,  já por volta das 10 horas da manhã, pai e filhas retornavam à sua casa, distante dalí uns dois quilômetros... mais ou menos...
Nesta foto panorâmica do bairro Benfica, em Fortaleza, vê-se o Estádio 
Presidente Vargas,conhecido por PV, cuja rua que vemos ao lado esquerdo 
 é a Rua Marechal Deodoro,antiga Rua da Cachorra Magra. O sítio, ficava 
depois do PV, onde se avistam árvores, no alto dessa foto. Mais à frente,
a avenida transversal é a 13 de Maio, onde está a edificação da Escola
 Técnica Federal de Ceará (SEFETE) ... (Foto: Arquivo Nirez).

Seguiam, então, pela Rua Marechal Deodoro, antiga Cachora Magra, atravessavam a Av. 13 de Maio e, mais adiante, no sentido centro, dobravam  na  Travesa Iguatu, ainda no bairro Benfica, quase em frente à belíssima e centenária Chácara Flora.
(ABRINDO UM PARÊNTESE...
A Chácara Flora (foto atual) era centenária e foi demolida 
no dia 30-12-11, causando grande revolta nos fortalezenses
que amam a sua cidade e querem preservar seu patrimônio
arquitetônico. Esta edificação situava-se na Rua Marechal 
Deodoro, antiga Rua da Cachorra Magra, próximo à Avenida 
13 de maio, quase chegando à antiga Travessa Iguatu, hoje 
Rua Padre Miguelino(Foto: blog Monumento, Arquitetura e Arte)
A chácara do Sítio da tia Luizinha, como essa e tantas
outras do aprazível bairro Benfica, também foi demolida,
com essa mesma"crueldade"...aplicada à Chácara Flora...
(Como "doem", na alma, esses "crimes" ,contra o patrimônio
histórico e arquitetônico da minha, da nossa, Fortaleza Amada...)
...FECHANDO O PARÊNTESE).
Luma, as suas duas irmãs e seu pai seguiam, o caminho de casa, pelas ruas Senador Pompeu, Barão do Rio Branco, Major Facundo, Floriano Peixoto e Assunção. A casa deles ficava (ainda fica) à Rua Saldanha Marinho, quase  na esquina com a Rua Solon Pinheiro, já no Bairro de Fátima.

No caminho de volta à casa, era muito comum encontrarem figuras "pitorescas" que, há muito tempo, faziam parte do cenário da cidade. Eram os vendedores ambulantes, com seus "ingênuos" pregões....
Alí estava, a Tereza, com sua enorme bacia de alumínio, carregada de "puxa-puxa" a dizer... quase cantando: "Olha o puxa-puxa da Tereza, quem quiser que se habilite!".
Com a bacia de alumínio, apoiada na murada de alguma casa, num movimento de vai-e-vem, com ambas as mãos, a Tereza ia dizendo o seu famoso pregão. Quando chegava um "freguês", interessado no puxa-puxa, ela pegava uma tesoura e cortava um pedaço, do tamanho costumeiro...delícia pura!!!

Alguns quarteirões depois, já se ouvia o tilintar de um  triângulo, tocado pelo vendedor de "chegadinha":
- "Pega, pega as chegadinhas, um punhado de conchinhas"... parecia dizer o som, da batida do triângulo...
O menino tocador, trazia um enorme cone de zinco, à tira-colo, sobre um dos ombros e ficava, assim, com as duas mãos livres para bater o pedacinho de ferro no anunciador triângulo musical...
Para quem não conhece a "Chegadinha", ela é um tipo de biscoito muito fino, na forma de uma concha, do tamanho de uma mão. Feita com trigo, manteiga, açucar... que "cola" no céu-da-boca, como uma "hóstia consagrada". É diferente do puxa-puxa, que é feito de melado de cana e "prega" nos dentes, como um "quebra-queixo". No entanto, ambos são doces e bonitos, como a infância: o puxa-puxa é claro, como o marfim, a chegadinha, é morena, como a rapadura...


Mais adiante, no caminho para casa, o pai e as três meninas, se deparavam com o "homenzinho" da cruzeta, que dizia, em sua cantilena: "Cruzeeeta, na hora...cruzeeeta, na hora... cruzeeeta, na hora...", sem parar...! Para quem não sabe o que é uma cruzeta, eu digo: é uma pequena cruz de madeira, com um gancho no alto, que se usa para pendurar roupa. Hoje, a cruzeta é chamada de cabide, pelo cearense. Com o passar do tempo, muitas palavras e expressões regionalistas, se "perderam"...


Os quatro andarilhos, em "marcha lenta", chegavam em casa por volta das onze horas, com o sol quase a pino, a bronzear a pele, tornando-a bem trigueira...


À noite, após o jantar, sempre ao toque da "ave maria", Luma e as irmãs iam juntar-se às amigas do quarteirão onde moravam, para as brincadeiras de roda, na calçada. Enquanto cantavam a ciranda, o atirei o pau no gato,  a senhora dona cândida e tantas outras cantigas de roda, passava, diariamente, o vendedor de "doce gelado" que, também, tinha o seu pregão:- "Doce gelado, sapoti, maracujá, namorei uma morena na Meton de Alencar, eu queria casar com ela, e ela não queria não, porque eu era um sorveteiro e ela chofer de fogão...doooce gelado..."...  


Essas lembranças, são tão fortes, para Luma, que hoje, professora da rede pública de ensino, resolveu participar de um concurso de poesia, inscrevendo um poema seu, onde relata essas "passagens" de sua infância...compartilhando esses momentos tão gostosos, como o puxa-puxa da Tereza, a chegadinha, o doce gelado, as mangas da tia Luizinha, o banho na Lagoa do Tauape...enfim...


*******
NOTAS:
1- A expressão "De primeiro", usado no iníco do texto, ao qual chamei de Conto Memorialista, é tipicamente "cearense". A "inspiração"veio  do romance "Dona Guidinha do Poço", de Manuel de Oliveira Paiva(1861-1892) cujo início é: - De primeiro, havia na ribeira do Curimataú, afluente do Jaguaribe, uma fazenda chamada Poço da Moita...(...);

2- A tia Luizinha, do conto, A Lagoa do Tauape, é Luiza de Oliveira Paiva, irmã de minha avó paterna, Rosa de Oliveira Paiva e do escritor Manuel de Oliveira Paiva (romancista, contista, poeta...);


3- Nesta postagem, condensei o conto, A Lagoa do Tauape, por ser muito extenso. No conto original, consta a poesia "Furto d'alma", que foi publicado na postagem do dia 13-04-11, aqui, na Cadeirinha de Arruar.

===================

Eu vou mas volto.......................Um abraço!