quarta-feira, 23 de maio de 2012

O NORDESTE, TERÇA-FEIRA, 20 DE MAIO DE 1952

MANOEL DE OLIVEIRA PAIVA (VI)
"DONA GUIDINHA" no quadro da época
J. Paiva
Papa Pio IX, autor da Bula  "Pro Animarum
Salute" de 6 de junho de 1854, pela qual o
 Ceará foi elevado à categoria de Diocese.
Dom Luis Antônio dos Santos,1º Bispo do Ceará.
Lazarista  Antônio Ferreira Viçoso,(1787-1875), nascido 
em Peniche-Portugal, que foi Bispo de Mariana -MG, (é o mais
idoso, na foto.)  Imagem copiada do google, como as demais acima...
Enseada do Mucuripe, vendo-se ao fundo o Velho Farol.
(Foto: Arquivo Nirez)
Publico esse vídeo, sobre o Farol do Mucuripe, que foi
 transformado no Museu do Jangadeiro, para mostrar o quanto o local
  está  abandonado, pela Administração do Município de Fortaleza e pela
  falta de zelo, da população, ao Patrimônio Arquitetônico e Cultural  da cidade.




Queremos, com este modesto estudo, não apenas retratar a exata personalidade de Manoel de Oliveira Paiva, como também interpretar seu romance, tanto quanto possível, à luz de uma época perfeitamente determinada pelo ambiente religioso, político e social, salvando assim a crítica de inquinações que ora surdem, menos de acôrdo com a formação do autor. Aprendi a viver tendo sua memória por um dos nomes da família;  tenho padecido, pássaro que tem vivido levando cargas às costas como bêsta, as mesmas torturas do ideal;  sua mãe foi minha inesquecível "vovó", a quem mais queria, nos meus oito anos, abaixo de pai e mãe;  e meu pai, José Joaquim de Paiva, genro de minha avó materna e seu próprio irmão, foi tio e cunhado de Manoel de Oliveira Paiva.
Mas vamos primeiramente apreciar a parte rligiosa do cenário do romance.

O Ceará, até a data de sua elevação à Categoria de Diocese, pela Bula, de título aliás particularmente significativo, "Pro animarum salute", do Papa Pio IX, de 6 de junho de 1854, tinha sido vigaria forânea da Diocese de Olinda.  Dom Luis Antônio dos Santos, um santo discípulo do santo lazarista  Antônio Ferreira Viçoso, depois Bispo de Mariana, fôra sagrado a 14 de abril de 1861, e tomou posse solene da Diocese a 29 de setembro seguinte.  Ele considerava desolador o estado do rebanho católico que lhe havia sido confiado, para isso bastando avaliar-se a imensa distância que a separava do Bispado de Pernambuco.  "Que trabalho verdadeiramente sôbre-humano, exclama um seu biógrafo, exigia tão grande emprêsa!  Pobres almas que jaziam assentadas à sombra da morte, sem lar e sem amor!  Dom Luis não esmoreceu um só instante diante de tão árdua tarefa ! ".

O primeiro Bispo do Ceará empreendeu a formação e santificação do Clero, a ereção de novas Paróquias e as visitas pastorais, além da constante pregação da Palavra de Deus. Também foi um prelado possuidor de inesgotável amor ao próximo. Entre as notas do seu "Diário" havia muitas como esta:  "1878 - 3 de Dezembro - Fui socorrer a uma pobre viúva doente com dois filhos; achei mortos ela e um filho à fome ; - Confissão em Mucuripe (bexiguentos). Outeiro:  Visitas  às barracas de S. Luiz, de Pajeú, de Pacatuba".
Estes três pontos do Bairro do Outeiro eram:  um ao lado da  igreja de S. Luiz, hoje demolida;  Pajeú, junto ao antigo açude;  e Pacatuba, nas terras do Barão de Aratanha, atrás da futura igreja do Sagrado Coração de Jesus, cuja construção estava sendo iniciada como um voto do sr. Bispo para que findasse a Grande Seca. Perto do Pajeú, do lado direito, ficava o sítio ou terreno arborizado de minha avó a que nos referimos anteriormente. A mãe de Oliveira Paiva abrigava retirantes à sombra das árvores ou em casebres, sendo que inúmeros apanharam varíola, com muitos casos fatais. Minha avó, dava água a todo o povo e no Outeiro se dizia que a cacimba de Dona Mariquinha não secara  durante os três anos porque ela franqueava água a todos.  Essa cacimba fica hoje no quintal da casa à Rua 25 de Março nº 681, de propriedade do sr. Messias Gonçalves. Supomos que em seu romance o meu tio Manoel refletiu o que vira então na Casa Velha de Dona Maria Izabel de Paiva Oliveira.
Por J. Paiva
...continua...
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NOTAS:
1- Estou mantendo, sempre, a ortografia original do texto biográfico, de J. Paiva, publicado em 1952 no jornal O NORDESTE;

2- Os leitores mais antigos, deste espaço, devem devem ter se lembrado de alguns fatos, no texto acima, como o da "cacimba da Dona Mariquinha", que foram tratados na "Saga de uma família", em postagens de 2011;

2- O romance "Dona Guidinha do Poço", foi "inspirado" em um fato real, ocorrido em Quixeramobim, no Sertão Central do Ceará, 
quando Manoel de Oliveira Paiva teve, em mãos, um processo sobre um "crime passional". Estava o escritor naquela cidade aprazível, tratando-se de uma tuberculose que o acometera...;

3- No capítulo VII, o próximo, mais "Guidinha do Poço" no quadro da época. Não percam!!!

()()()()()()()

Garanto que volto, na próxima semana. Abraços!





quarta-feira, 16 de maio de 2012

O NORDESTE, TERÇA-FEIRA, 13 DE MAIO, DE 1952

MANOEL DE OLIVEIRA PAIVA (V)
Contingências e sentimentos da família
J. Paiva
Nesta foto, vê-se a Rua 25 Março, em Fortaleza, no antigo bairro  
Outeiro,onde ficava o sítio comprado por Maria Isabel, mãe de 
Manoel.de Oliveira Paiva, ao ficar viúva do Mestre João. 
Era localizado à esquerda,  na parte inferior, tendo sido adquirido
em 1871. A foto é do início do século XX. Muito mudou...aí...
(Foto: Arquivo Nirez).
Praça Cristo Redentor, vendo-se ao fundo a Igreja da Prainha (N.S.
da Conceição da Prainha) que era frequentada pela família Oliveira
Paiva . A Igreja é do século XIX, mas a torre  com a praça, foi
construída na 2ª década do século XX.. Tanto a torre do Cristo Redentor,
como a Igreja da Prainha, estão sendo preservadas. (Foto: Arquivo Nirez) 
A ladeira, vista na foto, vem dar na Praia de Iracema, bem à frente.
Descemos muito essa ladeira, para irmos tomar banhos de mar.
Os degraus e os trilhos de bonde, já não existem. Hoje, é via
de carros, com intenso movimento. ( Foto: Arquivo Nirez).
O casario do Bairro da Prainha, vista do alto, da igreja. A
torre, que se avista ao longe, é de uma edificação que hoje
abriga  a Secretaria da Fazenda do Estado (SEFAZ). Já não
o coqueiral da época...próximo ao mar (antiga Praia do  Peixe,
hoje Praia de Iracema - Foto: Arquivo Nirez).
Fotos atuais, em detalhes, da Igreja da Prainha, que passou  por
algumas reformas. O Cristo na Cruz, que fica à frente da igreja,
é uma obra que foi executada pelo Mestre João (João Francisco
de Oliveira), pai de Manoel de Oliveira Paiva (meu bisavô paterno).
(Fotos: Oficina de Projetos)
Imagem de Santa Catarina Labouré, Irmã de
Caridade. Assim, era o "hábito" das Irmãs de
 Caridade francesas, que vieram para o Ceará em 1864.
Esse tipo de indumentária, inclusive o chapéu, chamado de
"corneta", permaneceu em uso até os anos 1960, salvo engano...!
(Imagem: blog ORAÇÃO E VIDA DE SANTOS).


Mas vamos descer do terreno elevado das crenças e das virtudes, a fim de apreciarmos as tristes contingências materiais em que ficára a mãe de Manoel de Oliveira Paiva.


Ela não podia continuar na casa onde uma hipoteca a precipitara. Não sei se pela exiguidade de espaço, ou por outro motivo. De um casal de escravos que, entre poucas coisas, lhe restara de uma partilha com herdeiros de dois casamentos de seu pai, filhos de uma escrava da família, vendera o Anselmo, de quem Manoel de Oliveira Paiva se lembrava certamente criando um moleque com êsse nome no romance "Dona Guidinha do Poço", astucioso que era o verdadeiro Anselmo, que molhava um pedaço de pão de milho no no azeite da lamparina acesa, ante um nicho de São Francisco das Chagas.  Pedia licença ao santo, e como êle se calava naturalmente, molhava o cuscús no azeite de côco e o comia, rindo da própria astúcia.
Rendeu o negrinho 800 mil reis, e minha avó chorava ao desfazer-se dêle, a quem queria como a um filho, forçada pelas circunstâncias duríssimas em que ficára com a morte de Mestre João. Sua irmãzinha Paula era a Madrinha Paula, "de girau", minha e de minha irmã. Tudo se acabou, tudo entrou para a eternidade...


Com êsse dinheiro, aforára um grande terreno no Outeiro. Lá foi construída uma casa de taipa, que na tradição de todos ficou conhecida como a "Casa Velha", ao ser demolida. Dali, enquanto meu tio Manoel de Oliveira Paiva ia entrar no Seminário do Crato, pois fizera sua Primeira  Comunhão ao tempo da Missão do Padre Onoratti e, demonstrara vocação ao sacerdócio, isto em 1875, parte de suas irmãs, inclusive minha mãe, ingressaram no Orfanato do Colégio da Imaculada Conceição, cuja Superiora era a Irmã Bazet, de quem lá em casa tanto se falava bem, como  nas demais Irmãs que aqui chegaram em 1864.
Três de minhas tias, entre mais ou menos 1875 e 1879, entraram no postulado das Filhas de São Vicente de Paulo, e tornaram-se verdadeiros Anjos da Guarda da nossa família. Com duas me correspondi desde os meus 7 anos. A última veio a falecer no Colégio Santa Izabel, em Petrópolis, a 1º de julho de 1945, aos 91 anos de idade e mais de 70 de vocação. Minha avó foi uma das mais antigas e assíduas Senhoras de Caridade Visitantes;  e até poucos dias antes de morrer, aos 88 anos de idade, em 1898, minha avó-bisavó, viuva de meu avô assassinado em 1842, ia todos os dias, acompanhado pelo sr. Áfio Bezerra de Menezes, da nossa casa na Praça do Colégio ou Rua 25 de Março para a Capela Velha, como assim era conhecida a antiga Capela das Irmãs, ao lado da igreja do Pequeno Grande, cuja construção apenas se iniciára. 


Enquanto Manoel de Oliveira Paiva seguia seu destino de sacertdote que um insólito incidente impediu de sêr; de militar a quem a moléstia pôs fora da carreira; de romancista que só teria de ser realmente conhecido e glorificado 60 anos após a morte, ficava o outro irmão, João de Oliveira Paiva. Pobre e enfrentando a criação e educação de não pequena família, minha avó, hábil aliás em prendas domésticas, no entanto pela madrugada fazia angu de milho, e lá ia à sua infalível Missa na Prainha. O filho João, depois que o angu ficava frio, cortava os mercados, punha-os sobre um tabuleiro, jogava-o sobre a cabeça de um negrinho e saia pela rua a vender o angu de milho feito pela mãe de Manoel de Oliveira Paiva. João de Oliveira Paiva, casado depois na família Menescal  Frota, de Arronches, não teve o espírito inventivo de seu pai, porém nenhum instrumento de música para êle tinha segrêdo, a uns afinando, a outros restaurando, a outros deslocando peças para reconstruir um terceiro. Tibúrcio Targino, com êle muito aprendera, e há pouco tempo faleceu, pobre e ignorado, o velho Mestre Antônio, afinador de piano, a quem chamávamos Antônio Conselheiro, e que tudo devia a João de Oliveira Paiva, cuja memória idolatrava.


Foi portanto, em meio a essas contingências de vida mas vivendo um ambiente doméstico de trabalho, piedade e virtudes, que se tornou adolescente Manoel de Oliveira Paiva.  Vamos já compreendendo que não era simples atavismo, uma ruminação mental e crenças desfeitas, o traço religioso, embora com alguns senões, que atravessa sua obra literária.  Vê-lo-emos com a continuação destas notas, que mais me sáem do coração que da mente, se grafar no papel...
Por J. Paiva
...continua...


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NOTAS:
1- Optei por transcrever esse texto biográfico, sobre Manoel de Oliveira Paiva, escrito e publicado em 1952 por J. Paiva, mantendo a forma original da época, em sua ortografia.

2- Sempre que possível, trarei imagens que possam "levar" o leitor a ter uma ideia de como era o "cenário" da Fortaleza da época, ou próximo à época, em que viveu Manoel de Oliveira Paiva, o personagem principal dessa história de família.

3- Quero aqui, tocar na dolorosa  "ferida" daquela época: a escravatura. Por "ironia", a mãe do biografado vendeu um escravo que criava como a um  "filho"... Assim, era: famílias abastadas, "possuiam" escravos. No entanto, Manoel de Oliveira Paiva tornou-se um dos maiores baluartes, no Ceará, no movimento abolicionistas, como pode-se constatar em sua obra, em sua  vida...


4- O Sr. Áfio Bezerra de Menezes, que acompanhava a minha bisavó-trisavó paterna, a quem J. Paiva, meu pai, se refere no seu texto acima, viria a ser meu meu bisavô e tio- avô materno.
O "parentesco duplo", se deve ao fato de que, tanto meu avô paterno, quanto meu avô materno, casaram-se, ambos, com uma sua sobrinha.


5- Os próximos capítulos, o VI, o VII e o VIII terão o seguinte sub-título:  "Dona Guidinha" no quadro da época.

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Mais uma semana, e estarei de volta.....Um abraço!

















quarta-feira, 9 de maio de 2012

O NORDESTE SEGUNDA-FEIRA 12 DE MAIO DE 1952

MANOEL DE OLIVEIRA PAIVA (IV)
Contingências e sentimentos da família
J. Paiva
Dr, Guilherme Studart, o Barão de Studart.
Médico, Historiador, de grande importância para
 a historiografia do Ceará. (Foto: o nordeste.com.)
Dicionário Bio-Bibliográfico Cearense, do
Barão de Studart. Rica fonte para pesquisa, sobre
o Ceará e os cearenses. (Foto: Portal da História do Ceará).
Padre Pedro Leopoldo de Araújo Feitosa, que foi Cura
da Sé de Fortaleza. Autor de "As Belezas do Cristianismo",
tendo sido padrinho de Batismo de minha tia Maria Carmelita, irmã
 de José Joaquim de Oliveira Paiva  (J. Paiva), meu pai, autor da biografia
de Manoel de Oliveira Paiva, ora transcrita em capítulos, neste blog.
(Foto: Arquivo de Pedro de Albuquerque)
Padre  Francisco Máximo  de Feitosa e Castro, Vigário
e Chefe de Partido, citado no texto biográfico.
(Foto: Arquivo de Pedro de Albuquerque).
Colégio da Imaculada Conceição, com a sua Igreja do Pequeno Grande.
O colégio já existia na década de 1870, porém a igreja, só foi  concluida
e inaugurada em 1903. (Foto: Arquivo Nirez)

                                                                     
Exemplar do livro "Imitação de Cristo", um dos livros
citados por José Joaquim de Oliveira Paiva (J. Paiva),
na biografia de Manoel de Oliveira Paiva, ora transcrita,
em capítulos, neste blog. (Foto: Mercado livre).
"O Evangelho em Triunfo ou a História
de um Filósofo Desenganado" ....
Um dos livros citados, por J. Paiva, no
texto bibliográfico abaixo. (Foto: Mercado Livre)
                                                                          

É tempo de tratarmos da formação espiritual  do tio Manoel. 
Ornava nossa casa um grande oratório, repleto de várias imagens já mencionadas, ante as quais por muitos anos rezámos.
Manoel de Oliveira Paiva não deixa que seus personagens percam a missa. Chega a procurar uma escrupulosa justificativa para a falta de audição da missa por parte do marido de Dona Guidinha do Poço, certa vez.  Esta não se esquece de levar um ramo de flores ao Senhor Santo Antônio.   Oliveira Paiva  compraz-se em por os nomes de Deus, Nossa Senhora e dos Santos na bôca dos que representam algum papel no drama. Certamente a influência do movimento republicano na Escola Militar, ao qual se emprestava um caráter deista, positivista, ateu mesmo, tudo se procurando reduzir ao racionalismo, é que devemos, além do recalque que vamos adiante historiar pela vez primeira, algumas frases que se deixam ressumbrar mais um ceticismo da moda que uma prova de impiedade, de anticlericalismo, mais nos parece que foram escritas irrefletidamente, apressadamente, a furto, a êsmo, como quem receava gravar aqueles períodos no papel, e nele ficaram sem ter havido tempo para reflexão, para eliminar essas frases malsinadas, pois logo depois se finara...

A Dona Angela, ao atender a uma escrava, enrolou "as Horas Marianas na sua capa de couro, dando um nó na respectiva correia". Ora, havia em nossa casa, quando éramos pequenos, uma caixa cheia de livros religiosos, que meu tio Manoel havia de ter manuseado também na sua infância tão pobre como a minha, mais ainda que a minha: uma meia dúzia de "Horas Marianas", algumas encardenadas em forte e bela carneira; umas três "Imitação de Cristo", do Pe. Roquette; o "Combate Espiritual"; a "Missão Abreviada"; o "Relicário Angélico"; o "Escudo Admirável; as "Revelações de Ana Catarina Emmerich"; o "Evangelho em Triunfo ou a História de um Filósofo Desenganado" (18 vols.), que depois de alguns anos vi citado por José da Silva Lisboa, em Princípios do Direito Mercantil", Introdução; "A Voz de Jesus Cristo pela bôca ados párocos" (3 vols.); "A Âncora da Salvação". A Imitação de Cristo" era da Tipografia Aillaud, porém os demais tinham sido impressos na Tipografia Rolandiana, chamada da última sílaba em baixo da página para a página seguinte os "ss" parecidos com "ff". Todas tinham a rubrica  : "Com licença da Mesa  do Desembargo do Paço, com os respectivos emolumentos pagos. Eram todos do tempo da Rainha Nossa Senhora Dona Maria I, que Deus haja!  
Contava-me minha mãe que aos domingos, no descanso da tarde, liam-se os comentários do Evangelho do dia. Quando minha avó, pelos impedimentos da maternidade, não podia sair para a igreja, meu avô assistia ao Santo Sacrifício da missa com dupla intenção, e lia a prática correspondente em "A Voz de Jesus Cristo", para que ela, em espírito, se unisse ao sacerdote e à significação litúrgica da missa. Esse era o exemplo constante de Mestre João Francisco de Oliveira e  Maria Isabel de Paiva Oliveira. 
Por parte de Paiva, exemplo era  o  velho cel. Antônio Pereira, que só se reconciliou com Deus na morte, pai do Marechal e do Desembargador, mas que no entanto, mamãe via beijar reverentemente a mão de Irmã Bazet, primeira Superiora do Colégio da Imaculada Conceição, parece-me que a vida do Engenho, das boiadas, dos comboios, das lutas de família, das questões políticas talvez inconcebíveis como as de hoje, modificára,, com a vida agitada e por vezes cruenta, um certo "viver perigosamente", desde os tempos dos Capitães Mores, das Sesmarias, os sentimentos religiosos que a distância das Freguesias, como também ainda hoje, muito mal alimentava. Verdade é que o Barão de Studart menciona vários sacerdotes, em meio à convergência de sangue diversos e a prova é que primos nossos eram o padre Leopoldo de Araújo Feitosa, que foi Cura da Sé de Fortaleza, tão manso quanto dado a estudos da Igreja, de quem minha irmã guardou "As Belezas do Cristianismo", sendo ele seu padrinho de Batismo, e o padre Francisco Máximo de Feitosa e Castro, Vigário e Chefe de Partido, que afinal sabia bem conjugar um gênio divertido , nem tanto que fizesse esmaecer seu caráter de Ministro do Altar.
Por J. Paiva
...continua...

&&&&&&&
NOTAS:
1- Mantive a ortografia original do texto de J. Paiva,  de quando ele o publicou, em 1952, no jornal "O NORDESTE", jornal católico de Fortaleza, onde ele escreveu durante muitos anos.

2- As ilustrações com fotos, que antecedem ao texto histórico-biográfico, possivelmente tornam a postagem mais atraente, tendo em vista que, para mim, "enriquecem" alguns fatos citados no conteúdo biográfico de Manoel de Oliveira Paiva, escrito por J. Paiva, meu pai.

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Retornarei, com o Capítulo V...........Um abraço! 



quarta-feira, 2 de maio de 2012

O NORDESTE, SÁBADO , 10 DE MAIO DE 1952

MANOEL DE OLIVEIRA PAIVA (III)
Contingências e sentimentos da família
J. Paiva
Antes de 1870, a atual Praça José de Alencar, que já se chamou
Praça Marquês do Herval, chamava-se Praça do Patrocínio.
(site Oficina de Projetos- Preservando a História).
Antiga Praça Marquês do Herval, hoje Praça José de Alencar, vendo-se
ao fundo a Igreja Nossa Senhora do Patrocínio. À esquerda, fica a Rua
24 de Maio, para onde se mudou a família Oliveira Paiva, após a morte
do Mestre João Francisco de Oliveira. (Foto: Arquvo Nirez)
Foto semelhante à anterior, colorida manualmente. Era
costume, nas décadas de 1920, 30, a venda de postais 
coloridos à mão...,em Fortaleza-CE.(Foto: Arquivo Nirez)
Foto mais próxima da Igreja do Patricínio. Do lado
direito, o belo prédio onde funcionava a Fênix Caixeiral,
escola que formava Guarda-Livros ( atual Contalibilista).
Nela, formou-se meu pai, José Joaquim de Oliveira Paiva
(J. Paiva, autor desse texto biográfico) onde, também, tornou-se
 Bibliotecário e Professor de Francês. (Foto: Arquivo Nirez)
Foto, ainda mais próxima,da Igreja do Patrocínio e da Fênix...
A Fênix Caixeiral, foi um grande polo de disseminação cultural,
em Fortaleza, por muitos anos.... Hoje, já não existem, nem o prédio,
nem a agremiação. Procurei, em vão, por seu acervo de livros e documentos
. Lamentável!  Mas continuo na busca...(Foto: Arquivo Nirez)
Visão aérea da Fortaleza de 1937. Vê-se, à esquerda a antiga Sé
de Fortaleza, antes de sua demolição, ocorrida.em 1938. Na extrema
direita, bem acima, a Igreja do Patrocínio.  O cenário é do século XX,
mas as Igrejas, da Sé e do Patrocínio, foram construídas no século XIX, e
nelas rezaram João Francisco de Oliveira, Maria Isabel de Paiva Oliveira, Manoel
 de Oliveira Paiva, e outros familiares, dentre eles, meu pai, (Foto: Arquivo Nirez)
Praça José de Alencar, em foto do anos 1960. No lugar da bela 
edificação da Fênix Caixeiral, vê-se o  espigão do INNS.
Quanta beleza, foi destruída...só a Igreja, permanece, nesta ótica...
Do lado oposto, em frente à igreja, está o Theatro José de Alencar.
Padre Bartolomeu Taddei, que introduziu
o "Apostolado da Oração" no Ceará, com outros
padres jesuítas italianos.´(foto: google)

As notas que hora redijo, já na tarde da vida, destinadas a colocar o nome de Manoel de Oliveira Paiva no exato ambiente de sua curta existência, graças à tradição dos nossos avós, transmitida durante a convivência de quase 56 anos, com sua irmã e minha mãe, Rosa de Oliveira Paiva, e minha irmã, Maria Carmelita, muitas vezes não podem encontrar uma correspondência certa do ano em que tal e tal fato ocorreu. Não tenho em mãos o acervo de documentos impressos do tempo, afim de poder estabelecer a curva precisa do incidente narrado. É êste, pois, um arcabouço que, se não me faltarem vida e ânimo, terei que encher e colorir.


Morto meu avô, português que, ao trabalho e à honestidade, alinhava lampêjos constantes de gênio criador, minha avó fora forçada, de um dia para outro, a procurar novo abrigo para si, oito  filhos pequenos, mais a dependência de escravos, restos de uma abastança partilhada entre ela e as enteadas. Os dois filhos do sexo masculino, João e Manoel, eram ainda quase crianças, pois o autor de "Dona Guidinha do Poço" nascera a 12 de julho de 1861. Foram residir quase em frente à Matriz do Patrocínio, se assim se denominava nêsse tempo a Paróquia, numa das antigas casas de beira e bica, no começo do primeiro quarteirão do lado da Rua 24 de Maio. Auxiliava-a um pouco o irmão cel. Antônio Pereira de Brito Paiva, que se metera na Política e era Tesoureiro Provincial.


Sob a influência de João Francisco de Oliveira, já as senhoras de minha família iam-se se tornando devotas . Para isso tinha muito contribuído a vinda do Pe. Antônio Onoratti, célebre jesuíta, que chegara ao Brasil, em companhia do Pe. Bartolomeu Taddei, o Apóstolo da Devoção ao Coração de Jesus,, em nossa Pátria, a 13 de de novembro de 1865. O Pe. Onoratti trabalhava , depois de Itú, no Colégio d S. Francisco Xavier, no Recife, teatro de dolorosas cenas a 14 de Maio de 1873, quando da Questão Religiosa que plasmou a alma desse nosso santo brasileiro, Dom Frei Vital. Como diz o biógrafo de Padre Taddei, ao chegarem a Itú, de cujo Colégio de S. Luiz, então fundado, tinha sido o primeiro Reitor, começaram os padres a combater o Protestantismo e o Jansenismo  de muitos católicos, os quais, tendo sido instruídos por sacerdotes jansenistas, admitiam um rigorismo abominável, tornado difíceis ou impossíveis a Confissão, a Comunhão, o Jejum ou outros atos religiosos. Com a introdução  do "Apostolado da Oração", prodigamente denominado "Associação do Coração de Jesus", no Ceará,onde missionou, com os Padres Taddei, Sottovia e outros, por várias Províncias, conseguiu o futuro autor de o "Crisóstomo Português", incrementar em Fortaleza o movimento religioso.
(Por J. Paiva)
...continua...

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NOTAS:
1- Com o sub título, "Contingências  e sentimentos da família", teremos mais os capítulos IV e V.
2- As fotos que ilustram as postagens, são para que o leitor, de certa forma, se "ambiente" no cenário e  em que viveram o autor da biografia e o biografado, ainda que em épocas diferentes. A Igreja de N. Senhora do Patrocínio, é a mesma...até hoje...

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Em uma semana, estarei de volta. Um abraço!





quarta-feira, 25 de abril de 2012

O NORDESTE - SEGUNDA-FEIRA , 05 DE MAIO DE 1952

MANOEL DE OLIVEIRA PAIVA (II)
Sua origem paterna                      J. Paiva
Velha Sé, de Fortaleza-CE, demolida em 1938. Nela, João Francisco de Oliveira
construiu tribunas, coros,altares, por exímio artista que era.  (Foto: Arquivo Nirez).

Como êle se comprazia em recordar certamente suas imagens de devoção nas páginas de "Dona Guidinha do Poço", embora talvez com espírito de imitação, olhasse com um tanto de respeitosa ironia, que não era descrença, alguma falsa idéia que o fanatismo ou a ignorância alimentasse com êsses objetivos de culto externo necessário e salutar! Como tudo isso, até mesmo a interpretação que se tem procurado dar a certos incidentes do romance me faz perpassar por minha imaginação, por minha sensibilidade religiosa nunca diminuída, graças a Deus, a saudade tão potuguesa e tão católica.

João Francisco de Oliveira (alíás Pereira, nome por êle só mudado pelo costume de usar o nome de família dos padrinhos) era natural da Ilha de São Miguel (Açores), filho de André Pereira e Jacinta Angélica Pereira. 
Marceneiro de profissão para ganhar a vida, as viuvas pobres que o conheciam em Fortaleza colocavam em sua modesta oficina um filho menor para a aprendizagem, e êle não se contentava em ensinar-lhe a arte gratuitamente, pois aos sábados entregava ao aprendiz parte de sua féria da semana, para que mãe e filho pudessem sobreviver...
Em fins de 1851, o Presidente Almeida Rêgo autorizava-o por Lei a conseguir em pernambuco grades de ferro para tribunas, para tribunas, coros e pavimento da velha Sé demolida.
Igreja e Seminário da Prainha, vista no ângulo das atuais Av. Dom Manuel
e  Rua Monsenhor Tabosa. (Foto: Arquivo Nirez)
Seminário da Prainha, vendo-se a atual Rua Mons. Tabosa ainda sem
calçamento e, na ponta à esquerda a Igreja Nossa Senhora da Conceição,
também conhecida por Igreja da Prainha. (Foto: Arquivo Nirez)
Na igreja da Prainha havia um grande órgão por êle fabricado, antes de vir outro da Europa. Em nossa casa havia gaitas de todos os tamanhos, dentro das quais modulara as diversas notas musicais, gravando com uma tinta indelével cada uma dessas notas. Ainda possuimos umas duas dessas gaitas. Restam também páginas com plantas de altares da Prainha, por êle construídos. 
Igreja de São Francisco das Chagas - CANINDÉ-CE ( hoje, Basílica)(Foto : Google)
Igreja Matriz de Sobral ( Catedral/Sé) (Igreja N. S. da Conceição) SOBRAL-CE (Foto: Google)
Cemitério São João Batista , cuja capela ( a central, maior), em
 formato octogonal, foi projetada e construída pelo Mestre João
Francisco de Oliveira. (Foto: site da Santa Casa da Misericórdia)
Em Canindé e Sobral trabalhou em igrejas. Construiu a capela do S.S. da Sé; e em 30 de abril de 1865 contratava com o Govêrno da
Província a construção da capela do Cemitério São João Batista pela quantia de 2.837$094. Na "Descrição da Cidade de Fortaleza", do douto historiador Antônio Bezerra tudo isso e outros fatos se encontram relatados no que tange à capital.

Também João Francisco de Oliveira foi fotógrafo. Escritos com tinta de cor, umas fixas, outras quase a desaparecer, às vezes com lápis, centenas de notas de suas pacientes e certamente caras caras experiências enchem um livro que tenho conservado.. Vai de 18 de julho de 1865 a 29 de junho de 1870. Acertando uma fórmula químico-fotográfica, nesta última data, êle dava esta nota particular, que para êle devia ser muito preciosa, com um "Glória a Deus". No mesmo livro, talvez escrito muitos anos depois, Manoel de Oliveira Paiva encheu 4 páginas com umas noções de Gramática Portuguesa, que não terminou e, em dezenas de outras páginas, uma de suas irmãs copiou vários cânticos religiosos que todos cantavam nos exercícios do Mês de Maria e outros. Estas notas servem para a crítica de "Dona Guidinha do Poço", onde há referências a cânticos religiosos.
Esse era pois, meu avô, pai de Manoel de Oliveira Paiva, português cujo talento, aliado ao amor ao trabalho, à pobreza, à honestidade que ia até o escrúpulo e o sacrifício, à dedicação à família e à vida religiosa, quase de um professo, não sei como possa louvar.
De sua primeira mulher, Emília Rosa de Oliveira, conheci a filha, Joana, a tia Joaninha, mãe de Tereza Botelho, que seria esposa de Manoel de Oliveira Paiva. Além dela houve Maria Virgínia, que casou com o Maestro Vitor Nepomuceno, filho adotivo Antônio Raposo, sendo Antonio Raposo primo de meu avô.
Certamente da figura do modesto e paupérrimo João Francisco de Oliveira, a quem João Brígido num artigo que não tenho em mão por tê-lo perdido, mas que foi publicado na edição do "O Unitário" há tempos consagrada ao grande jornalista, deu o título de"Mestre de todo ofício", podemos dizer que foi isso mesmo. Tudo êle tentou fazer, além do ganho do pão de cada dia. Chegou até a ser medidor de terra, tendo falecido em 1871 em consequência de uma pneumonia contraída em Maranguape, quando alí fora medir umas terras. Suas tentativas em torno da Fotografia tinham-lhe consumido a saude e os recursos. No êle mandar dia seguinte ao de sua morte, minha avó saía de sua casa que êle mandara construir para residência. Estava hipotecada. Essa casa ainda existe, na esquina da Avenida Duque de Caxias com a rua General Sampaio n. 1462.
Para o lado da Avenida Duque de Caxias ficava sua oficina, dependente dependente da casa da família, e ali hoje se acha o pôsto de automóveis Hudson. Sua vida, nos últimos anos, afanosa, difícil, cheia de trabalhos de artista pobre, mas elevada pelo talento e pelas virtudes, ali teve seus derradeiros dias. Era na velha estrada do Benfica, lugar naquêle tempo  denominado "Três Cajueiros". Mais de uma vez, entusiasmado com as experiência de Banho de Prata, escrevia num português característico: 
"Agoa - Agoa do Benfica acentada ou filtrada ataca pouco a prata.; A agoa do Benfica não destroi a prata".
Isso era entre outubro e novembro de 1869, segundo a posição em seu livro de notas.
(Por J. Paiva)                                                                                                    (...continua...)


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NOTAS:
1- As fotos que ilustram essa postagem, não constaram da biografia de Manoel de Oliveira Paiva publicada no jornal "O NORDESTE", em 1952. Achei por bem trazê-las aqui, para que os leitores tivessem um ideia do porte das igrejas em que João Francisco do Oliveira empregara seu ofício.
2- Mantive a escrita de J. Paiva, o autor do escrito, na íntegra e com a ortografia da época.

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Na próxima semana, trarei o capítulo III.
Até lá! Meu carinho, num abraço, a todos...

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O NORDESTE SEGUNDA-FEIRA, 28 DE ABRIL DE 1952

MANOEL DE OLIVEIRA PAIVA (I)
Sua origem materna                                   J. Paiva      
Antigo Engenho Tamatanduba, Rio Grande do Norte,
onde nasceu Maria Isabel de Castro Paiva, que viria a se casar,
  em Fortaleza, com o português, da Ilha de São Miguel dos Açores,
João Francisco de Oliveira, e seriam pais de Manoel de Oliveira Paiva.
(Imagem registrada por Lúcia Paiva, em viagem de pesquisa - 2007)
Ainda no tempo em que tomei conhecimento de minha existência, sobretudo num ambiente de íntima e piedosa veneração pelo passado de nossa família, a casa como que retratava, nos móveis antigos, nas fotografias com indumentárias de casa e saia-balão, numa porção de cartas, numa coleção de estampas religiosas, num enorme oratório cheio de imagens portuguesas, emvários pequenos objetos significativos para a caracterização de pessoas e fatos que, umas e outras,  ficaram para trás, uma visão de saudoso mergulho mental nessa época, que o meu espírito romântico não chegara a alcançar. Ao vir ao mundo, a 7 de novembro de 1895, já ia fugindo, talvez com medo do Progresso, uma fase doméstica que um dia seria preciso pôr à luz do sol, se alguns vultos dos nossos, nimbado de glória, a isso forçasse a um dos membros mais tocado pelo amor à sua gente. E chegou, afinal esse dia, e dessa doce incumbência a Divina Providência me incumbiu. É que, julgando-me bem dizer sozinho no extremo desse rio do passado, confesso que aprendi a sempre venerar, a amar, a adorar o que foi e continua a ser digno, nesse culto da Grande Família, de cuja decadência morre a nossa Civilização.

Já se foram, em 1950 e 1951, minhas inesquecíveis irmã e mãe, descansar de uma vida, de mim quase de todo participada, de privações e provações, porém cheia de tristes mas consoladoras reminiscência, sempre conservadas pelo zelo e honradas pela imitação de virtudes que alguns dos parentes praticaram em grau não comum. Depois da morte de meu pai, entre meus nove e dez anos de idade, minha saudosa mãe nos tomara, a mim e minha irmã, seus dois únicos filhos, confidentes da séries de episódios de família a que assistira, ou que os nossos avós lhe haviam narrado. Agora, no momento em que meu tio, seu irmão, falecido a 29 de setembro de 1892, há quase sessenta anos, com a impressão de um dos seus romances, que ao morrer já terminara fazia alguns meses, ainda inédito por uma esquisita sorte, veio levantar, com o crime dessa tão viva "Dona Guidinha do Poço" pela mão invisível de seu gênio de artista, a cortina que ocultava, sob os originais guardados religiosamente por Américo Facó e Antônio Sales, a paisagem tão clara e pinturesca, tão cheia de enredo e interesse, do Ceará da segunda metade do século passado, é tempo de cumprirmos um antigo desejo, que é sagrado dever.

A força de nos contar certo lance de tragédia na minha família, a mamãe, (Rosa de Oliveira Paiva) cuja figura ainda antevejo em minha tia, (Luiza de Oliveira Paiva) tornara a lição bem sabida pelos dois filhos, eu e minha irmã, Maria Carmelita de Oliveira Paiva. Não era escrito mas narrado de viva voz; e, contudo, exibindo-o dentro de minha memória, não tenho vontade de preferir-lhe um film desses que servem mais à indústria que à Verdade, à Beleza e ao Bem no seu sentido integral, que é a dignidade humana.

No fundo de um dos grandes baús da casa, a mamãe nos mostrava de quando em quando, nos dias longos em que costurava tendo-nos ao seu lado, ou nas noites, no sossego da sala de jantar, uma pedra mármore que depois de cinqüenta anos que a observo, ainda contemplo, com lágrimas nos olhos d'alma, com a inscrição: "Vicente Ferreira de Paiva - assassinado no dia 3 de fevereiro de 1842 - 24 de agosto de 1872 - J.J.P " - Que era isso?

Vicente Ferreira de Paiva, avô materno de Manoel de Oliveira Paiva, e meu avô paterno e bisavô materno, fora morto de emboscada em Pedra de Fogo, província de Pernambuco, naquele remoto 1842. Saíra do engenho Tamatanduba, Rio Grande do Norte, o qual em várias biografias de nossa parentela, aparece no Dicionário Bio-bibliográfico, do Barão de Studart, como propriedade de Bernardo Freire de Castro. Ali, digamos de passagem, tiveram formação ou encontro, os Freire, os Brito, os Araújo,, os Ferreira, os Paiva, os Câmara, os Sidrim, os Queirós, os Bandeira de Melo, os Albuquerque de Barros, os Bizerril, os Bizarrias, que sei mais? Cito sem ordem, sem uma ligação entre si, que em parte já foi estudada em alguma pesquisa genealógica, ninho esse que deve ter sido de alianças que entrelaçaram inúmeras famílias do Rio Grande do Norte, da Paraíba, de Pernambuco, do Ceará e talvez de mais distantes Províncias, pois ali poderemos encontrar uma das caudais do nosso povoamento. Também desejaria bem conhecer a trama desse crime atribuído ao célebre André de Cunhaú, numa fase de lutas de partidos em que as próprias famílias se digladiavam sem piedade, e as vítimas se sucediam fatalmente.

Esse assassino muito fez sofrer minha avó e bisavó, a Madrinha, como se chamava em casa e que, ainda criança, vi morrer docemente, depois de me ter ensinado a rezar. Indo a negócios a Recife, desprezando avisos da família e dos amigos, alegando na sua reta consciência, que "quem não deve não teme", fora perder a vida montado a cavalo muito adiante dos seus comboieiros, aos quais precedera para observar corajosamente perigosas entradas pelos sertões. A um seu genro, quase pelo mesmo tempo, acontecera o mesmo, tendo descendido de sua filha, Maria Benvinda, o médico cearense Antônio Ambrósio Carneiro, pai do doutor Araken Carneiro.

De Vicente Ferreira de Paiva, casado pela primeira vez com Maria Rita do Amor Divino, descende o cel. Antônio Pereira de Brito Paiva, pai do Marechal Vicente Osório de Paiva e do Desembargador Joaquim Olímpio de Paiva. Casado pela segunda vez com Ana Joaquina de Castro, filha de Gonçalo Gomes de Castro e Maria Rita de Revorêdo, um de seus filhos foi meu pai, José Joaquim de Paiva; e também Maria Isabel, que teria de ser mãe do irrequieto mas martirizado Manoel de Oliveira Paiva, e minha querida avó materna, sobre cuja figura encanecida, que desapareceu há mais de 45 anos, ainda paira no meu espírito, por santa que era...

Aquela lousa sepulcral, trinta anos depois da morte trágica do meu avô, gravada por meu outro tio materno, João de Oliveira Paiva (que ingressou como artista que era na Padaria Espiritual , fundada a 30 de maio de 1892, quando o tio Manoel se aproximava de sua edificante morte a 29 de setembro do mesmo ano), isso há quase 80 anos, ainda nítida como se fora recentemente, o papai tinha ido levá-la ao túmulo de meu avô, em Pedra de Fogo (depois de ter corrido o Brasil até o Rio de Janeiro, onde vivera vários anos) como preito de saudade de toda a família, tendo porém desistido da viagem porque, em curto tempo, aquele trágico acontecimento tivera ressonância aqui mesmo no Ceará, onde tinham vindo residir, também seus irmãos por parte de pai, Miguel Pereira Paiva, casado na família Barroso, e Antônio Pereira de Brito Paiva, o terrível "Velho Paiva", pai do Marechal e do Desembargador, eminente vulto político que vi morrer a 22 de janeiro de 1901. Os amigos de meu pai temiam uma revindita.

Esse crime de Pedra de Fogo, obrigando minha avó e bisavó, parece-me que em 1845, como se apressada pela seca, a residir em Fortaleza, afastando-se dos sertões dos Inhamuns, mudou o destino da minha família, como que preparando, de modo indireto, o gênio e a celebridade do tio Manoel de Oliveira Paiva e do meu primo Alberto Nepomuceno. Artistas, um das letras e outro da música, vazado ao molde de homem completo que foi o português e açoriano de São Miguel, a quem João Brígido chamou um dia de "Mestre de todo o ofício", como veremos pela origem paterna, no capítulo seguinte...
(Por J. Paiva)


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NOTAS: 
1- Escrevi na íntegra, esse primeiro capítulo da biografia de Manoel de Oliveira Paiva, da mesma forma  que J. Paiva (José Joaquim de Oliveira Paiva - meu pai ) fez publicar no jornal "O NORDESTE", na Segunda-Feira do dia 28 de Abril de 1952.

2- Quem me acompanha, neste blog, desde o mês de agosto de 2011, deve ter percebido que, muitos dos fatos que eu narrei na série SAGA DE UMA FAMÍLIA encontra-se nessa biografia, por ter sido esta a "fonte" principal, para aquelas publicações. É 
importante dizer que, na altura em que meu pai escreveu essa biografia, publicada em jornal, ele ainda não havia recebido a carta do eminente historiador/pesquisador LUIS DA CÂMARA CASCUDO, que muito viria esclarecer sobre a localização geográfica do ENGENHO TAMATANDUBA.

3-Nessa biografia, meu pai se refere à cidade Pedra de Fogo, onde Vicente Ferreira de Paiva foi assassinado. Na verdade, o nome correto é Pedras de Fogo. Este nome foi esclarecido quando, em 2007 fui, com meu marido ao antigo Engenho Tamatanduba, no Rio Grande do Norte, para a pesquisa sobre meus ascendentes que, de lá, após o assassinato de meu bisavô,Vicente Ferreira de Paiva, emigraram para o Ceará.


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Voltarei, na próxima semana, com: MANOEL DE OLIVEIRA PAIVA (II)  - Sua origem paterna.   _Meu abraço, forte!









quarta-feira, 11 de abril de 2012

UMA BIOGRAFIA, À LUZ DAS RECORDAÇÕES DA FAMÍLIA...


Manoel de Oliveira Paiva (1861-1892)
À sua esquerda, Manoel de Oliveira Paiva, ao
 lado do amigo Antônio Martins, seu  companheiro
de lutas políticas e literárias. (Foto: arquivo de família)
Muito tenho dito aqui, sobre Manoel de Oliveira, Paiva, meu tio-avô paterno, irmão de minha avó Rosa e sobrinho de meu avô, José Joaquim, que era tio da minha avozinha Rosa, também, claro!
Quando trouxe à essas páginas, os capítulos de "SAGA DE UMA FAMÍLIA", em 2011, algumas vezes citei Manoel. Nas postagens do último mês de março, anterior à última, trouxe um pouco da obra desse cearense bravo que teve vida tão breve, mas tão "rica", em suas produções literárias: dois romances, dezenas de contos e muitas poesias. 
Além do seu engajamento, nas lutas sociais de seu estado natal, o Ceará.
Dizia eu também, em algum momento, que meu pai, que "venerava" a figura do tio, falecido antes de seu nascimento, o que só viria a ocorrer em 1895 (Manoel, falecera em 1892), escrevera e publicara em jornal de Fortaleza, "O Nordeste", uma biografia que, segundo ele,  fora elaborada "à luz das recordações da família".
Dizia eu, também aqui, que o primeiro romance  de Manoel de Oliveira Paiva, "Dona Guidinha do Poço"  só foi publicado 60 anos depois de sua morte, por obra de um  "acaso". No prefácio do livro, publicado pela Editora Saraiva, em 1962, a escritora Lúcia Miguel Pereira relata todo o "enredo", do tal feliz acaso...

Pois bem. Tenho a cópia da biografia feita por meu pai, cuja esperança em publicar em livro eu "nutria" . No entanto, dada as dificuldades em fazê-lo, decidi, agora, publicá-la neste espaço virtual. Tal decisão, se deve ao fato de, essa biografia já está completando, neste ano, exatamente 60 anos, que foi escrita e publicada, em capítulos, no jornal "O Nordeste". O mesmo espaço de tempo que levou o primeiro romance de Oliveira Paiva para ser publicado em livro. Sabe-se que, um outro romance do autor, "A Afilhada" havia saído publicado em folhetim, em 1891, pouco antes de sua prematura morte.
A biografia, escrita por J. Paiva (José Joaquim de Oliveira Paiva, 1895- 1977), meu pai, foi publicada em 25 capítulos, em dias alternados, iniciando-se no dia 28 de abril de 1952 e concluindo-se a 24 de julho do mesmo ano.
Um fato interessante, é que em 1962, ano do centenário de nascimento de Manoel de Oliveira Paiva, ocorreram várias homenagens à sua memória, em Fortaleza, tendo sido inaugurada uma grande avenida com o nome de "Av. Oliveira Paiva" ..Naquele mesmo ano, um crítico literário, Braga Montenegro, viera à nossa casa, pedir emprestado, ao meu pai, os originais que ele guardara em seus arquivos, dos exemplares do jornal "O Nordeste"...Ele emprestou mas, nunca mais os obteve de volta. Assim, para recuperar esses jornais fomos, dois irmãos meus, comigo, fazer intensas buscas nos arquivos e bibliotecas da cidade. No entanto, na maioria das vezes, os jornais, pelo tempo transcorrido, estavam deteriorados, tornado-se quase impossível a leitura completa. Após muitas pesquisas, utilizando fotografia digital, conseguimos reunir todos os capítulos... 
Publicar a biografia de Manoel de Oliveira, agora, é uma questão de "honra", de minha parte, para realizar um desejo de meu pai, autor da mesma, 35 anos após a sua morte, aos 82 anos de idade. É, também, um dever para com os cearenses, compartilhando assim, com os nossos conterrâneos, uma narrativa de um perfil desconhecido pelo leitor de Oliveira Paiva, haja visto que, até então, as biografias publicadas narram fatos semelhantes entre si, diferente dessa, que brotou ..."à luz das recordações da família".


!!!!!!!!!!!!

Voltarei, com a biografia de Manoel de Oliveira Paiva I ... Sua origem materna...    Um abraço!